Entrevista

Boselli diz que errou ao escolher Corinthians e cobra salários atrasados: “Ainda me devem um montão de dinheiro”

Diego Yudcovsky
Em entrevista exclusiva, Boselli lamenta não ter se encaixado no Corinthians.
Em entrevista exclusiva, Boselli lamenta não ter se encaixado no Corinthians.
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Na semana seguinte à divulgação do balanço financeiro do Corinthians, que contabiliza dívida de quase 1 bilhão de reais, um ex-jogador da equipe reforça o quão delicada se tornou a situação econômica alvinegra. "O Corinthians ainda me deve um montão de dinheiro. Estamos vendo uma forma de poder saldar essa dívida", revela o atacante Mauro Boselli ao 90min, na primeira entrevista após deixar o clube paulista.

De acordo com o documento publicado na última sexta-feira, 121 milhões dos 949 milhões de reais da dívida acumulada correspondem a débitos com atletas e empresários. O zagueiro Gil, por exemplo, tem mais de 11 milhões de reais para receber do clube. Boselli não expôs o valor de sua cobrança. Desde que deixou a equipe, no fim do ano passado, ele mantém contato com o presidente Duílio Monteiro Alves a fim de encontrar uma solução para o pagamento.

Contratado por 6,3 milhões de reais no início de 2019, o centroavante argentino defendeu o time alvinegro por duas temporadas. Marcou 17 gols em 72 jogos. Números modestos comparados aos de sua trajetória pelo León, do México, onde anotou 130 vezes em 221 partidas. "Se comparar com minha passagem pelo México, [o período no Corinthians] não chega perto do que fiz por lá", reconhece Boselli, que considera um erro ter optado pela equipe corintiana ao vir para o Brasil.

"Meu empresário tinha duas propostas do futebol brasileiro. Uma delas era do Corinthians. Quando se diz a um argentino que River ou Boca quer te contratar, por mais que outra equipe também queira, vai escutar a proposta de River ou Boca. É o mesmo caso no Brasil. Quando te ligam de Corinthians ou Flamengo, o resto dos times passa para um segundo plano", explica o atacante.

"Errei ao escolher o Corinthians. Eu não me encaixava no estilo de jogo do time. Ainda me devem um montão de dinheiro. Estamos vendo uma forma de saldar essa dívida"

Mauro Boselli

"Me foquei muito no que era o Corinthians como instituição. A qualquer jogador brasileiro que perguntar em qual equipe quer jogar, vai responder Corinthians ou Flamengo. Eu senti isso na hora de tomar a decisão e, talvez, me equivoquei um pouco. Nesse momento, não olhei que forma de jogar tinha a equipe. Ou que estilo combinava melhor com meu futebol. Errei na hora de escolher o clube. Se você me perguntar hoje, eu tomaria a mesma decisão, porque o Corinthians é magnífico. Não somente em relação à estrutura, que é espetacular, mas também à torcida e tudo que move o Corinthians. Meu erro foi na escolha. Eu não me encaixava no estilo de jogo do time. Isso dificultou as coisas para mim."

Para Boselli, as coisas começaram a deslanchar no ano passado, quando o clube trocou Fábio Carille por Tiago Nunes. Segundo ele, a mudança no comando técnico o deixou mais motivado e fez com que seu desempenho melhorasse. "No meu segundo ano no Corinthians, mudou o treinador. Chegou um técnico [Tiago Nunes] que me ajudava muito mais no que eu podia fazer como jogador de futebol, como centroavante. Comecei o ano muito bem. Antes da pandemia, a gente tinha jogado 11 partidas, eu tinha marcado seis gols e dado três assistências. Uma arrancada incrível", relembra.

No entanto, a parada de três meses imposta pela pandemia de coronavírus e as seguidas lesões que sofreu atrapalharam sua afirmação na equipe. "Fiquei quase dois meses parado por causa de uma fratura no rosto. Isso me fez perder muito espaço. A equipe oscilou nesse momento. Quando volto e estou bem para jogar de novo, sofro uma lesão no tornozelo, que me deixa mais um mês e meio fora. Essas duas lesões impediram que eu seguisse o ano como tinha começado."

"Me dá um pouco de tristeza pela forma como expuseram [minha demissão] na televisão. Mas é parte do que é o Corinthians e do que precisam vender para fora do clube"

Mauro Boselli

Algo que o incomodou após a saída do Corinthians foi a exposição da conversa derradeira com Duílio Monteiro Alves, em que o presidente lhe comunicava que seu contrato não seria renovado, na série de documentário Acesso Total, produzida pelo SporTV, com o aval do clube. "Obviamente, eu não fui consultado. Ninguém me disse: 'Olha, vamos mostrar esse episódio da demissão'. Eu também não esperava que fossem mostrar isso. Mas foi uma formalidade, mais para as câmeras do que pra outra coisa. Eu já sabia, dois ou três meses antes, que não seguiria no Corinthians, quando deixei de ser convocado para as partidas", conta o argentino.

"Me doeu depois. Me dá um pouco de tristeza pela forma como expuseram na televisão. Mas é parte do que é o Corinthians e do que precisam vender para fora do clube. Realmente, não dei muita bola pra isso. Preferia que [a reunião] não tivesse se tornado pública. Não há por que saírem essas coisas. Mas dou a importância que merece. A decisão já estava tomada há muito tempo", diz Boselli, que, aos 35 anos, se diz bem adaptado ao Cerro Porteño, onde é titular e um dos artilheiros do time no Campeonato Paraguaio. "Ao final, foi bom para mim [ter saído do Corinthians]. Hoje o tempo me deu razão. Estou numa equipe em que me sinto cômodo e desfrutando do futebol."

Boselli lesao Corinthians entrevista
Boselli usa proteção facial após fraturar o rosto quando defendia o Corinthians. / BRUNO ESCOLASTICO/Photopress/Gazeta Press

Seu único lamento foi não ter tido a oportunidade de se despedir da torcida corintiana, já que os jogos no Brasil ainda estão sendo realizados sem a presença de público devido à pandemia. "Algo diferente da torcida do Corinthians é que o time pode estar perdendo uma partida, mas ela segue apoiando. Obviamente, é uma torcida que reclama, chata, te faz sentir a pressão quando as coisas não saem bem… Mas, dentro de campo, ela apoia do primeiro até o último minuto de cada jogo", avalia o atacante, que aponta a falta de torcida no estádio como um dos motivos para temporada ruim do Corinthians em 2020. 

"As equipes sabiam que, quando iam ao estádio do Corinthians, não era fácil ganhar. É o que acontece com o Boca na Argentina. Não é a mesma coisa jogar na Bombonera sem público. No campo do Corinthians é exatamente igual. Faz muita falta jogar com o apoio da torcida."

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