Impacto social

A decadência do olheiro que descobriu Ronaldinho e acabou condenado por abuso sexual de jovens jogadores

Breiller Pires
Primeiro treinador de Ronaldinho Gaúcho foi demitido por justa causa do Grêmio.
Primeiro treinador de Ronaldinho Gaúcho foi demitido por justa causa do Grêmio. / Arquivo pessoal
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Por mais de uma década, sua fama de grande descobridor de talentos se espalhou pelo Rio Grande do Sul. Entre os garotos que ajudou a revelar, constavam nomes de jogadores consagrados no futebol, como os goleiros Cássio e Marcelo Grohe, o zagueiro Léo, o meia Anderson, ex-Manchester United, e ninguém menos que Ronaldinho Gaúcho, pentacampeão mundial com a seleção brasileira.

Foi assim que José Alzir Flor se tornou conhecido em Porto Alegre, onde trabalhava como coordenador das categorias de base do Grêmio e jamais havia despertado suspeitas até meados de 2010, quando foi demitido por justa causa do clube, acusado de abusar sexualmente de três atletas com menos de 14 anos.

A maioria dos funcionários subordinados ao coordenador sabia de suas práticas e já tinha ouvido queixas de jogadores sobre os abusos. Entretanto, a denúncia só chegou às autoridades depois que uma mãe resolveu quebrar o silêncio.

Seu filho, que integrava o time sub-14 do Grêmio, revelou que durante uma viagem da delegação para um campeonato em Colinas, interior do Rio Grande do Sul, em 2009, acordou à noite no alojamento ao ser apalpado por José Alzir, que começou a masturbá-lo em cima da cama.

O menino de 13 anos chegou a relatar o episódio de Colinas a um estagiário da base. Porém, o Grêmio só demitiu José Alzir no ano seguinte, quando o Ministério Público já o havia denunciado. “Meu guri sempre foi gremista. O sonho dele era defender o clube. Mas, depois do que aconteceu, perdeu o encanto pelo futebol. O Grêmio foi omisso por muito tempo”, afirmou a mãe.

Na época do escândalo, a antiga diretoria do clube alegou ter mobilizado esforços para colaborar com as investigações, mas a promotoria do MP concluiu no inquérito que o coordenador da base contou com a cumplicidade da instituição para cometer os abusos. 

"Vítimas e testemunhas do Grêmio disseram à Justiça que o olheiro tomava banho e dormia com os garotos no alojamento"

De acordo com o processo, que apurou crimes cometidos entre 2008 e 2009, José Alzir ordenava para que as vítimas baixassem o calção e ficassem seminuas. Essa era sua maneira peculiar de medir a “maturação” do corpo dos meninos. Ele aferia não só a quantidade de pelos pubianos, mas também relacionava o desenvolvimento físico de alguns ao fato de serem frequentemente masturbados. 

Vítimas e testemunhas do Grêmio disseram à Justiça que o olheiro tomava banho e dormia com os garotos no alojamento, que abrigava cerca de 80 jogadores nas dependências do antigo estádio Olímpico. 

Apesar da série de denúncias, José Alzir respondeu ao processo em liberdade. Ao sair do Grêmio, em 2010, foi para o Hercílio Luz, de Santa Catarina. Em 2012, partiu para Ciudad del Este, onde comandou as categorias de base do 3 de Febrero, time que disputava a primeira divisão paraguaia.

Em março de 2014, ele reencontrou Ronaldinho antes de um jogo do Atlético-MG contra o Nacional pela Copa Libertadores, realizado em Ciudad del Este. O ex-craque do Barcelona abraçou o dirigente e aproveitou a ocasião para ressaltar que ele tinha sido seu primeiro treinador no Grêmio. 

Quatro dias antes do encontro, a Justiça brasileira havia condenado José Alzir a 10 anos e meio de prisão em regime fechado pelas denúncias dos garotos gremistas. Em 2015, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul confirmou a sentença em segunda instância, reduzindo a pena para nove anos de prisão.

Abuso sexual base Gremio
José Alzir (à esq.) ao lado do zagueiro Léo, que foi formado pelo Grêmio. / Arquivo pessoal

Considerado foragido das autoridades brasileiras desde 2016, ele seguia trabalhando normalmente com crianças e adolescentes no Paraguai até que uma reportagem do El País revelou seu paradeiro. Foi demitido do 3 de Febrero e, em novembro de 2019, acabou detido pela Polícia Civil gaúcha, escondido em um balneário no litoral do estado.

Os três atletas que denunciaram formalmente o ex-olheiro pelos abusos tentam superar o trauma longe dos gramados. Nenhum deles chegou a atuar pela equipe principal do Grêmio. Rodaram por times menores até abandonar a carreira de jogador.

De profissional renomado nos bastidores da bola a sentenciado por abuso sexual de crianças, José Alzir agora está de volta a Porto Alegre. Dessa vez, cumprindo pena num processo que levou mais de 10 anos para ter um desfecho.


18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Saiba como denunciar abusos e contribuir com o enfrentamento à violência sexual contra jovens atletas.

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