5 torcidas LGBTQ+ pioneiras no futebol brasileiro

Organizadas LBGTs enfrentaram todo tipo de rechaço e perseguição no Brasil
Organizadas LBGTs enfrentaram todo tipo de rechaço e perseguição no Brasil | Shaun Clark/Getty Images

Se entender enquanto pessoa LGBTQ+ em uma sociedade ainda atrasada e conservadora na mentalidade e nos costumes é um processo duro, doloroso. Se identificar enquanto LGBTQ+ e ocupar espaços como o futebol, um meio extremamente violento às minorias, é um ato de resistência. Nos vestiários ou nas arquibancadas, construir uma sensação de pertencimento àquele espaço, onde os gritos e cânticos homofóbicos são infelizmente tão naturalizados, testa a resiliência e o amor pelo futebol: como existir em um lugar que te rechaça?

Nesta segunda-feira (17), Dia Internacional Contra a Homofobia, exaltamos 5 torcidas LGBTQ+ pioneiras que encararam o preconceito e marcaram posição nos estádios e no futebol brasileiro. A elas, nosso respeito e gratidão por lutarem com tanta coragem por um esporte mais inclusivo e igualitário:


1. Coligay

Fundada em 1977 em meio à ditadura militar no Brasil, a Coligay é considerada, até os dias de hoje, a primeira torcida organizada LGBTQ+ da qual se tem conhecimento e registro histórico. Naquele ano, diversos apaixonados e apaixonadas pelo Grêmio resolveram se juntar e ocupar um espaço nas arquibancadas para acompanhar o Imortal, estreando no Olímpico em uma vitória por 2 a 1 contra o Santa Cruz (RS).

Apesar da força de seus integrantes, a Coligay acabou sendo dissolvida em apenas dois anos, por conta dos ataques e represálias que partiam da própria torcida do Grêmio: "Existiram algumas tentativas de agressão no início e houve até um episódio em que jogaram pedra na gente. Eu cheguei até a colocar alguns dos integrantes em aulas de caratê, para que soubessem se defender", afirmou Volmar Santos, um dos fundadores da Coligay, em entrevista ao Agência UVA.

Atualmente, o Tribuna 77 é um dos coletivos tricolores mais atuantes nas arquibancadas no que diz respeito às pautas progressistas, de combate ao racismo e à LGBTfobia.

2. Fla Gay

O Flamengo tem a maior torcida do Brasil, o que, por proporção lógica, lhe garante a arquibancada mais plural e diversa possível, com gente das mais variadas origens, credos, classes e orientação sexual. Contudo, essa diversidade ainda não se manifesta de forma declarada nos corredores do Maracanã, e quando houve uma tentativa disso, o rechaço foi tão grande que a iniciativa acabou antes mesmo de se consolidar.

O ano era 1979, quando o carnavalesco Clóvis Bornay convocou os torcedores rubro-negros LGBTQ+ para irem ao Maracanã em um clássico contra o Fluminense. Ofendidos pelos próprios torcedores durante todo o confronto, a 'Fla Gay' ainda foi acusada pelo presidente do Flamengo à época, Márcio Braga, de ter sido a "praga" que causou a derrota do clube por 3 a 0 na partida.

Os ataques e retaliações incessantes fizeram com que a Fla Gay fosse descontinuada pouquíssimo tempo depois, e nenhuma das duas tentativas seguintes de "renascimento" da iniciativa foram à frente.

3. Maré Vermelha

Ela não é tão conhecida do grande público, mas isso não diminui em nada sua relevância e a coragem de seus membros. Apaixonados pelo Inter de Santa Maria - pequeno clube do Estado do Rio Grande do Sul -, torcedores LGBTQ+ fundaram, em conjunto com a Escola de Samba Vila Brasil, a Maré Vermelha, torcida que transformou as arquibancadas do Estádio Baixada Melancólica em um local de acolhimento para gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

"A Vila Brasil é a Escola de Samba mais antiga da cidade. Na época ela já tinha uma Ala Gay que formava a base da Maré Vermelha e que atuava como bateria da nossa charanga nos estádios. A Maré naquele momento foi o único movimento organizado para dizer que nós gays existíamos, mesmo que de forma inocente. Brigando pelo nosso espaço, apesar do preconceito que havia", contou Marquita Quevedo, ex-membro da torcida, em entrevista ao Boca Jornalismo.

A Maré existiu por duas longas décadas, até que um triste episódio de agressão direcionada a um dos fundadores da torcida culminou na dissolução do movimento.

4. GaloQueer

Fundada no ano de 2013, a GaloQueer pode ser considerada um "expoente moderno" de pioneirismo, pois resgata esse movimento iniciado nas décadas de 70 e 80 pelas torcidas citadas anteriormente neste artigo e outras sobre as quais não há registro/documentação histórica.

Tendo a bandeira anti-homofobia como sua principal pauta, a GaloQueer se faz presente no Independência, no Mineirão e onde mais o Galo estiver. Infelizmente, por medo das represálias e das agressões dos intolerantes, seus membros ainda não conseguem se manifestar livremente nas bancadas, seguindo no "anonimato". Inspirou a criação de uma série de torcidas e coletivos progressistas, como o que listaremos a seguir.

5. Palmeiras Livre

A Palmeiras Livre surgiu enquanto coletivo no ano de 2013, inspirada pela GaloQueer. Com quase 20 mil seguidores somando todas as redes sociais, seus membros já sofreram e ainda sofrem com ofensas e ataques homofóbicos nestas plataformas online, e por isso protegem a identidade de seus membros e fundadores, como ilustra a foto acima tirada durante um treinamento no Allianz Parque.

"Não somos uma Torcida Organizada. Frequentamos o estádio, contudo não com camisetas do coletivo e nem bandeiras, pois temos medo de violência. Ainda há um enorme desconforto na sociedade em geral de associar o time à luta LGBT, antirracista e antimachista. O Brasil é o país no qual ocorre mais mortes LGBT e entidades ligadas ao esporte são muito omissas", afirmou Thaís Nozue, criadora da página Palmeiras Livre no Facebook, em entrevista ao Torcedores.

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