A exatos dois meses da estreia na Copa do Mundo de 2026, o Brasil está longe de transmitir confiança. Não se tratando apenas de ajustes naturais de fim de ciclo - o cenário atual expõe um problema mais profundo: falta de identidade, ausência de uma base consolidada e decisões que ainda parecem em aberto tarde demais.
A presença da comissão técnica no Fla-Flu do último final de semana, observando nomes como Léo Pereira e Lucas Paquetá, reforça um ponto claro: ainda há vagas abertas e decisões importantes a serem tomadas.
Um ciclo bagunçado cobra seu preço antes da Copa do Mundo 2026
A própria fala do goleiro Ederson resume bem: "já foi dito para alguns jogadores que o início do ciclo foi um pouco bagunçado e o começou muito tarde, mas isso não é desculpa. Temos que estar preparados para a Copa", declarou o atleta do Fenerbahce (Turquia) durante entrevista no final de março.
Desde a saída de Tite, a Seleção passou por diferentes ideias, comandos e critérios. O resultado é um time que, hoje, ainda não sabe exatamente o que quer ser dentro de campo.
A derrota para a França escancarou isso. Mesmo com um jogador a mais, o time não conseguiu controlar o jogo, não impôs ritmo e não mostrou variação tática. Faltou organização - e isso, a essa altura, não deveria mais ser uma questão.

Defesa instável e escolhas pouco convincentes
O setor defensivo talvez seja o maior retrato da desorganização. Lesões, testes e improvisações criaram um cenário em que ninguém se firmou de fato. Danilo aparece como uma das poucas certezas - o que, por si só, já diz muito sobre o nível de consolidação do elenco.
A lateral continua sendo um problema crônico. Nenhum nome se impôs durante o ciclo. E insistir nas mesmas soluções sem alto rendimento não transmite segurança.
Na zaga, a situação também está aberta. Bremer cresceu e disputa seu lugar ao sol, enquanto Léo Pereira, titular contra França e Croácia ainda não é assegurado com convicção.

Goleiros em baixa e pressão por mudança
Talvez o ponto mais sensível hoje seja o gol. A lesão de Alisson e a fase irregular de Ederson e Bento criaram um cenário incomum: desconfiança em uma posição que sempre foi segura. Ou, pelo menos, a menor da dores de cabeça, pelas cadeiras cativas já preenchidas e pouco na posição.

E isso muda o debate de forma mais profunda do que parece. Quando nomes como Fábio e Everson, atuando no futebol brasileiro, passam a ser pedidos com força é um sintoma claro da falta de confiança nas opções atuais da Seleção.
O torcedor que acompanha o Brasileirão rodada após rodada vê desempenho, regularidade e protagonismo dos goleiros dos seus próprios times - ou dos seus algozes frequentes. E, diante de atuações irregulares de nomes consolidados na Canarinho, é natural que surja o questionamento: por que quem está em melhor fase fica fora? Qual tipo de meritocracia está sendo utilizada?
No fundo, essa pressão revela um incômodo maior: a sensação de que a Seleção se distancia do próprio futebol brasileiro. E, quando isso acontece, a conexão com o torcedor também entra em xeque. Ancelotti indicou que os nomes estão “mais ou menos definidos”, mas o desempenho recente mostra que talvez não devessem estar.
Ataque talentoso, mas mal resolvido

O Brasil tem talento. Isso é indiscutível, porém as questões que cercam o setor ofensivo também está longe de ser resolvido. Vinícius Júnior é um dos exemplos - ainda não conseguiu reproduzir com a Amarelinha o nível que apresenta com a 7 do Real Madrid. E, sem isso, o ataque perde seu ponto de desequilíbrio.
A dúvida entre atuar com um centroavante clássico ou apostar em mobilidade segue aberta. A ausência de um nome centralizado definido agrava o cenário. A discussão principal ainda não foi resolvida: o Brasil precisa de um 9 de referência?

O mais preocupante é o que vem depois disso. Quando não se sabe exatamente qual caminho seguir, qualquer solução imediata passa a parecer válida. É nesse contexto que jogadores como Luiz Henrique acabam funcionando como válvula de escape - não porque existe um modelo potencializa suas características, mas porque o time simplesmente precisa de alguém que resolva.
O ex-ponta do Botafogo foi um dos poucos lampejos contra a França. Apoiar-se unicamente no improviso, na individualidade que “aparece” quando o coletivo falha, não é estratégia de seleção que quer ser campeã do mundo — é sintoma de um time que ainda não sabe o que é.
O Brasil que o torcedor quer, e o que ele vê
Existe também um fator emocional que pesa: o torcedor brasileiro está desconectado da Seleção.
Falta identificação, entrega visível, um time que convença.
Aquela mítica da seleção que empolgava antes mesmo da bola rolar pelos medalhões característicos hoje gera pouca expectativa na torcida brasileira. O torcedor quer voltar a se reconhecer em campo. E isso, em Copa do Mundo, pesa.
Brasil ainda está em construção - e tem pouco tempo para mudar
A dois meses da Copa do Mundo, o cenário é claro: mais dúvidas do que certezas. Nomes com o prestígio de Carleto como os laterais Danilo e Alex Sandro são questionados. O restante do time vive disputas abertas, oscilações e indefinições.
O desafio do italiano é transformar esse cenário em tempo recorde. E, neste momento, a Canarinho ainda parece mais um time em busca de respostas do que pronto para dar elas em campo.
