Quarto rebaixamento do Vasco é fruto de um golpe político selado pelo euriquismo

Breiller Pires
Alexandre Campello entra para a história do Vasco como o maior responsável pelo quarto rebaixamento em 12 anos
Alexandre Campello entra para a história do Vasco como o maior responsável pelo quarto rebaixamento em 12 anos / Andre Fabiano/Gazeta Press
facebooktwitterreddit

Diante do quarto rebaixamento em pouco mais de 12 anos, torcedores vascaínos podem apontar em várias direções em busca de culpados. Elenco aquém da tradição e do peso da camisa, as inúmeras falhas da defesa, promessas da base que não vingaram, a dependência de Germán Cano ou até mesmo o retorno decepcionante de Vanderlei Luxemburgo integram, sem dúvida, o pacote que decretou a queda. 

Mas é preciso voltar mais no tempo para entender quando e como o Vasco começou a ser rebaixado. O bilhete para a segunda divisão foi assinado ainda em janeiro de 2018, quando Alexandre Campello protagonizou uma abjeta manobra política para se tornar presidente do clube.

Com o apoio do então benemérito e ex-presidente Eurico Miranda, o médico injetou o pior remédio possível para a instabilidade política da qual o clube padece há vários anos. Rompeu com Júlio Brant no segundo turno da eleição, virou a casaca e, contrariando a vontade expressa nas urnas pela maioria dos sócios, consagrou o modo euriquista de fazer futebol vencendo a votação indireta.

A gestão à frente do clube acumulou vexames esportivos e institucionais. Durante seu mandato, o time não venceu o maior rival Flamengo, algo tão valorizado por seu padrinho Eurico. Não conquistou nenhum título nem se mostrou competitivo nos torneios de mata-mata. Fora do campo, desgastou a imagem de uma instituição que se diz engajada em questões sociais ao tentar fazer média com autoridades, empresários e cartolas de valores opostos aos do clube, como a lamentável homenagem ao Coronel Nunes, ex-presidente da CBF e notório apoiador da ditadura militar.


"Para a história cruzmaltina, ainda sabotada pelos rastros do euriquismo, a assinatura de Campello estará em destaque como um nome a ser lembrado de forma nada saudosa"


Apesar da campanha que angariou mais de 150.000 novos sócios-torcedores, Campello não conseguiu pôr ordem nas finanças vascaínas. Descumpriu vários combinados de parcelamento e acerto de salários com o elenco, aumentando o desgaste das relações internas. Com o baixo orçamento, cometeu o pecado de errar demais na contratação de reforços — Cano e Benítez estão entre as raras exceções que emplacaram.

Pela forma como chegou ao poder, o ex-presidente jamais esteve perto de pacificar o ambiente político do clube. Em vez de atender aos apelos da torcida e desistir de concorrer a um novo mandato, Campello resolveu tentar o improvável. De olho no pleito, demitiu Ramon Menezes e, com uma cartada eleitoreira, trouxe um técnico estrangeiro para acalmar opositores e correligionários. O português Sá Pinto não durou nem três meses no cargo.

Novamente, mesmo após a morte de Eurico, a eleição do Vasco descambou em baixaria, caso de polícia e acusações de fraude. Campello foi um fracasso nas urnas. Apoiado pelo baixo clero euriquista, Leven Siano manobrou na Justiça e nos bastidores, mas não foi capaz de impedir a vitória de Jorge Salgado, que só tomou posse no fim de janeiro, depois de muitos recursos nos tribunais.

Eurico, ex-presidente do Vasco, articulou golpe político que elegeu Campello e perpetuou seu legado no clube
Eurico, ex-presidente do Vasco, articulou golpe político que elegeu Campello e perpetuou seu legado no clube / Alexandre Loureiro/Getty Images

Em meio ao caos político, o Vasco perdeu tempo precioso. Primeiro, ao demorar a demitir Sá Pinto. Segundo, por atrasar a renovação com Benitez, que desfalcou a equipe em jogos importantes. Por fim, ao contratar um novo treinador. Luxa não era a primeira opção, mas acabou acionado após o clube não chegar a um acordo com Zé Ricardo. Era tarde demais.

No futuro, Campello dirá que, sob seu comando, o Vasco não foi rebaixado, pois deixou a cadeira antes da queda se confirmar. Entretanto, para a história cruzmaltina, ainda sabotada pelos rastros do euriquismo, a assinatura do ex-presidente estará em destaque como um nome a ser lembrado de forma nada saudosa. A bola cobrou o preço do cartola que desrespeitou sócios e a torcida em troca do poder.

facebooktwitterreddit