Reportagem especial

Premier League, Copa do Mundo e burnout: o que o calendário de 2022 pode nos ensinar sobre saúde mental

Lucas Humberto
Superlotação do calendário esportivo em 2022 acende importante alerta acerca das discussões sobre saúde mental no esporte de alto rendimento
Superlotação do calendário esportivo em 2022 acende importante alerta acerca das discussões sobre saúde mental no esporte de alto rendimento /
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"Aceitar um desafio é muito parecido com andar a cavalo, não é? Se você se sente confortável enquanto faz isso, provavelmente está fazendo errado". A frase que você acabou de ler foi dita por Ted Lasso, ou coach Lasso, para os fãs mais intimistas da premiada série de comédia da Apple TV+. Em pouquíssimas palavras, a produção narra a história de um treinador norte-americano contratado para comandar o AFC Richmond, time da intrigante proprietária Rebecca Welton.

Mas, afinal de contas, por que estamos falando de uma série? A resposta é bem simples: contexto. Em suas duas temporadas já lançadas, vemos Ted tentando entender os meandros regulamentares e futebolísticos do célebre Campeonato Inglês. E não faltam desencontros ao longo do caminho. De regras simples ao empate, Lasso é um verdadeiro forasteiro no que diz respeito aos compromissos da Premier League - e posteriormente da Championship.

Ted Lasso Premier League Calendário Saúde Mental
Acredite é um dos lemas de Ted Lasso na premiada série de televisão / Robbie Jay Barratt - AMA/GettyImages

Tido como torneio mais prestigiado do Velho Continente, o Inglês mobiliza legiões inteiras de fãs que sequer pisaram na terra da rainha. A grife local é gigantesca. Milhões de jogadores sonham com o dia em que poderão atuar na elite do futebol de clubes. Mas, você já considerou que a grande referência das competições nacionais pode estar suscetível aos equívocos? O modelo da modalidade mais popular do mundo erra?


A Copa do Mundo em 130 mil quilômetros quadrados

Sabemos que dezembro chegou quando o cheiro das típicas comidas natalinas toma conta da casa, Frank Sinatra está tocando sem parar e as televisões transmitem produções quase sempre repletas de neve - e olha que o Brasil não poderia ser mais tropical. Bem, essa é uma das possíveis rotinas do mês. Se você for um jogador de futebol europeu, sua agenda certamente estará lotada.

No 12º mês de 2021, o Manchester City entrou em campo sete vezes pela Premier League. Nos gramados espanhóis, a rotina do Real Madrid envolveu cinco partidas de LaLiga. Um pouco mais longe dali, na Série A, a Inter de Milão também teve cinco compromissos. Na Bundesliga, o Bayern de Munique teve quatro, assim como o Paris Saint-Germain, pela Ligue 1.

Kevin De Bruyne Joao Cancelo Premier League Saúde Mental Copa do Mundo
Citizens tiveram intenso calendário durante o mês de dezembro / Marc Atkins/GettyImages

Todos os times citados encerraram o ano na liderança de seus respectivos torneios nacionais. A diferença entre eles está na quantidade de jogos. Em dezembro, naturalmente se joga mais nos gramados da Inglaterra. E a explicação é cultural: Boxing Day. Acontece que, nesta edição, o preocupante adendo sanitário da Covid-19 tornou o espetáculo ainda mais... árduo.

Mesmo diante do cenário calamitoso, poucas partidas foram adiadas. Jamie Spencer, jornalista do 90Min Football, explica as razões que levaram o calendário a ser mantido: "A cultura e as atitudes inglesas em geral são bastante rígidas e inflexíveis, portanto, manter as coisas como estão, em vez de ter que mudar, geralmente é a preferência".

Ele, no entanto, explica que, embora seja mais cômodo eleger os compromissos do Boxing Day como os principais culpados para a lotação do calendário em dezembro, "o maior problema é a rodada extra de jogos espremida entre os dois [Boxing Day e partidas do Ano Novo], o que não é realmente necessário e aumenta as demandas dos jogadores", aponta Spencer.

Passível de questionamentos, sobretudo no que diz respeito à integridade mental dos atletas, os confrontos de fim e início de ano estão enraizados na cultura local. Mas eles são apenas a ponta do iceberg. Se sairmos um pouco da superfície (e acredite, nós vamos), iremos nos deparar com uma série de controvérsias que, de tão naturalizadas, foram esquecidas.

No abarrotado ano de 2022, manter um calendário viável é ainda mais desafiador. E a razão não poderia ser mais óbvia: Copa do Mundo. Se não houver mudanças posteriores na organização, a previsão é que as cinco principais ligas do Velho Continente liberem seus jogadores somente após os jogos do fim de semana de 11 a 13 de novembro. O Mundial do Catar começa no dia 21.

A conta fecha? Talvez se deixarmos de levar em consideração questões como o bem-estar físico e psicológico dos envolvidos. E, no caso da Premier League, o cenário promete ser ainda mais caótico, afinal, a temporada 2022/23 do torneio será retomada em 26 de dezembro, exatos oito dias após a final da Copa e justamente na data do tradicional Boxing Day.

Manchester City Covid-19 Boxing Day
Inglaterra sofreu com o alastramento da Covid-19 em dezembro / OLI SCARFF/GettyImages

"Ter muitos jogos da Premier League em um curto espaço de tempo em dezembro e janeiro aumenta o fator de entretenimento, especialmente quando outras ligas estão de folga."

Jamie Spencer, do 90Min Football

Qual o impacto direto da superlotação de partidas em ano de Mundial? Seleções. Na primeira lista de Tite em 2022, por exemplo, 26 atletas foram convocados. Desses, 24 atuam nos gramados europeus, sendo 11 no Campeonato Inglês. Isso sem falar na gama de outros times nacionais que têm grande parte dos seus atletas atuando na terra da rainha.

130 mil quilômetros quadrados correspondem à área da Inglaterra. A dimensão pode parecer ínfima perto do restante do planeta. No entanto, em termos futebolísticos, a influência do país é imensurável. Em todos os sentidos, diga-se de passagem, afinal, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.

Mas será que o esporte de alto rendimento realmente está sendo tratado como deveria no Velho Continente? Ou será que estamos tão acostumados a olhar os malefícios locais que acabamos deixando de lado o dito exemplo global? Você me diz. "Se a Internet nos ensinou alguma coisa, é que às vezes é mais fácil falar o que pensamos anonimamente", afirmou Ted Lasso.

Copa do Mundo 2022
Copa do Mundo é o principal evento esportivo do ano / Shaun Botterill/GettyImages

Bola na cesta é gol?

Se você vai a Nova York precisa passar pela Times Square. Compras no Chelsea Market também são indispensáveis. Quer diversão? Coney Island. Agora, se você realmente quer ter uma experiência estadunidense completa, não pode deixar o esporte de lado. Ir ao Madison Square Garden ver os Knicks é praticamente uma obrigação de qualquer turista.

Ao contrário da América do Sul e grande parte da Europa, nossos vizinhos norte-americanos não costumam ter tanto apreço assim pelo futebol. Claro, aos poucos a Major League Soccer (MLS) vai conquistando seus adeptos, mas ainda há um extenso caminho a ser percorrido. Algo que não podemos dizer da National Basketball Association (NBA).

Com milhões de fãs espalhados em todo o planeta, a maior liga de basquete do mundo conta com 30 franquias participantes, divididas em Conferência Leste Oeste. Ao longo da temporada, legiões de torcedores observam os melhores jogadores da modalidade disputarem 82 partidas. Posteriormente, 16 times classificados partem rumo aos playoffs, disputados em melhor de sete.

Luka Doncic Alec Burks NBA
Jogos da NBA têm proporção de grandes eventos / Jim McIsaac/GettyImages

A intensidade também é marca registrada da NBA. E olha que, perto de outras ligas norte-americanas, ainda há certo respiro. "O calendário da NBA não inclui muitas pausas prolongadas, mas a liga está realmente focada em reduzir jogos consecutivos e aliviar a carga dessa maneira. Para a temporada 2021/22, as equipes da NBA têm uma média de 13,5 jogos consecutivos em sua programação de 82 jogos, um pouco menos que as equipes da NHL (hóquei) e muito menos que as equipes da MLB (baseball)", explica Ian Levy, Creative Editorial Director da FanSided.com.

As coincidências entre futebol e basquete não param na paixão dos fãs ou na pungente quantidade de compromissos. Se a Premier League tem seu Boxing Day, a NBA tem seu Christmas Day. A rodada de Natal do basquete, embora não seja um feriado propriamente dito, mobiliza os torcedores como se fosse.

Em 2021, o evento esportivo teve o mesmo pano de fundo de todos os outros que aconteceram na mesma época: Covid-19. Ainda assim, foram cinco os confrontos agendados, seguindo a tradição de ter 10 times participando: Knicks x Hawks; Bucks x Celtics; Suns x Warriors; Lakers x Nets e Jazz x Mavericks, o último acontecendo no dia 26 de dezembro.

Presente na rodada natalina, o New York Knicks entrou em quadra seis vezes entre os dias 20 e 31 de dezembro. O Los Angeles Lakers, de LeBron James e Anthony Davis, cinco. Ritmo intenso? Sim. Rentável? Muito. Quando falamos no esporte de alto rendimento, nunca podemos deixar de tratar de uma variável capaz de mover montanhas: dinheiro.

LeBron James NBA LA Lakers
Time de LeBron James teve rotina intensa em dezembro / Harry How/GettyImages

Não queremos esmiuçar as subjetividades da relação finanças-felicidade. Contudo, ignorar as características corporativistas das modalidades mais populares do planeta também não ajuda em nada, afinal, longe da emoção da torcida e dos feitos que estampam capas de jornais, o esporte nada mais é que um negócio.

"Menos jogos significam menos receita, o que também significa menos dinheiro para os atletas. Isso pode não ser grande coisa para as estrelas que ganham dezenas de milhões de dólares por ano, mas a grande maioria dos jogadores da NBA não ganha nesse nível e reduzir seus salários também pode ser prejudicial à saúde mental", aponta Levy.

"Acho que equipes, torcedores e mídia estão muito mais conscientes do papel da saúde mental no desempenho esportivo. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas acho que há muitas mudanças que podem ser feitas e que teriam um impacto positivo muito maior do que mudar o cronograma", completa.


Coliseu moderno

"Acho que 2022 é a minha última Copa do Mundo. Encaro como a última porque não sei se terei mais condições, de cabeça, de aguentar mais futebol "

Neymar ao DAZN

A fala do craque brasileiro repercutiu intensamente na mídia esportiva em outubro de 2021, cerca de dois meses depois da desistência da ginasta Simone Biles de algumas provas durante as Olimpíadas de Tóquio. À época, as respectivas declarações de ambos impulsionaram necessárias discussões acerca do papel da saúde mental no esporte de alto nível.

"Essa parte mental precisa ser trabalhada. Isso é pouco falado. Ultimamente tem aparecido um pouco mais, como o exemplo da ginasta [Simone Biles] que não conseguiu atuar nas Olímpiadas. Precisamos falar mais disso. A cada dia que passa eu tenho mais certeza de que a parte mental é até mais importante que a física. Se você não tiver bem na sua cabeça, as coisas não acontecem", Marcos Guilherme, atacante de 26 anos do Santos, ao UOL Esportes.

Os três casos não são isolados. Aliás, nesse sentido, talvez tenhamos muito mais em comum com atletas de renome mundial do que nos damos conta. A partir de janeiro de 2022, a síndrome de burnout - ou síndrome do esgotamento profissional -, passou a ser considerada doença ocupacional.

Simone Biles Saúde Mental Burnout Premier League Copa do Mundo
Desistência da premiada ginasta reacendeu debates de saúde mental / Laurence Griffiths/GettyImages

Sentimento de exaustão, perda de interesse no trabalho, falta de energia, ansiedade e depressão são apenas alguns dos sintomas do burnout. A doença pode ser desencadeada por vários motivos. Contudo, invariavelmente, as causas estarão relacionadas ao excesso de trabalho. Será que os dias de hoje realmente permitem que profissionais sejam tratados como gladiadores tentando nos entreter na moderna versão do Coliseu?

"As exigências para que os jogadores tenham um desempenho do mais alto nível são implacáveis ​​por pelo menos 10 meses do ano e isso tem um custo mental. Os planos da Fifa para ter edições da Copa do Mundo e da Eurocopa a cada dois anos só aumentarão esse custo. "

Jamie Spencer ao 90Min Brasil
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