Reportagem especial

Portões fechados e cofres vazios: como a pandemia afetou os clubes brasileiros

Milena Medeiros
Jogos sem torcida viraram o novo normal desde 2020.
Jogos sem torcida viraram o novo normal desde 2020. / Buda Mendes/Getty Images
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A crise sanitária e humanitária causada pela pandemia do Covid-19 paralisou e transformou o mundo de uma maneira nunca antes vista. No futebol, adiou campeonatos, contaminou profissionais e devastou a receita dos clubes ao redor do mundo. O caso que mais chama atenção é o Barcelona, que encerrou o ano de 2020 com prejuízo superior a 97 milhões de euros, e, neste ano, as adversidades financeiras lhe custaram a perda do maior jogador da história do clube, prejuízo que dinheiro nenhum é capaz de pagar.

Lionel Messi, Nasser Al Khelaifi, Leonardo
Messi deixou o Barcelona após 21 anos por problemas financeiros e estruturais do clube. / Getty Images/Getty Images

Os clubes brasileiros são ainda mais vulneráveis porque não têm grandes receitas como os gigantes europeus. Com o adiamento dos campeonatos, direitos de TV e bilheteria interrompidos, cancelamento dos planos de sócios e investimentos reduzidos, o futebol brasileiro viveu cenário assustador que favoreceu o acúmulo de dívidas milionárias e crises financeiras caóticas dentro dos clubes.

Arquibancadas vazias

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Quem imaginou uma final de Champions sem torcida? PSG e Bayern vivenciaram de perto a experiência em Lisboa / MIGUEL A. LOPES/Getty Images


A energia do futebol está na torcida. Por conta da pandemia, ficamos um ano, de casa, assistindo partidas silenciosas. A ausência de público nos estádios não só fez e faz falta financeiramente aos clubes, como também faz toda a diferença na competitividade das equipes. Estudos realizados neste período demostraram números de derrotas dos mandantes em nível jamais visto. De fato, a presença dos torcedores é essencial para o melhor desempenho das equipes.

Richarlison, atacante do Everton e da Seleção Brasileira conta que tal condição pode favorecer os visitantes: ''Em termos de tática e técnica, pouca coisa muda. O que pode acontecer é os times visitantes se sentirem mais à vontade de jogar fora, porque não vão sofrer com a pressão da torcida."

Richarlison
Richarlison / Gareth Copley/Getty Images

O prejuízo das bilheterias

Após um ano de partidas com portões fechados, os clubes viram suas receitas reduzirem desastrosamente. Só pela bilheteria, o Flamengo deixou de arrecadar R$ 85 milhões , o São Paulo, R$ 71 milhões, e o Corinthians, R$ 64 milhões, fechando os três clubes que mais deixaram de ganhar com a presença da torcida nos estádios entre os anos de 2020 e 2021.

Com a proibição de público nas partidas, os clubes brasileiros foram surpreendidos pela ausência da bilheteria em seus orçamentos, e tiveram que se adaptar para encontrar outras opções rentáveis para amenizar a crise. Alguns clubes encontraram o sucesso, outros se afundaram mais ainda..

Maiores receitas de 2020 – R$ milhões

Fonte: SportsValue

*Atlético-MG inclui o valor líquido da operação do Diamond Mall.

Lidando com a crise

Um caso curioso é o Flamengo, que apesar de ter perdido o maior valor bruto em receita ( 282 milhões de reais), ainda assim liderou os rankings de maiores receitas de 2019 e 2020. O clube carioca foi um dos que melhor lidou com a situação de crise, mantendo em alta a venda de seus jogadores e graças à boa gestão dos investimentos recebidos. Por mais que tenha o maior faturamento do futebol brasileiro, chegando próximo do bilhão em 2019, os custos do atual campeão brasileiro não são baixos, principalmente a folha salarial, que ultrapassa os 200 milhões de reais.

As vendas de seus jovens jogadores seguem dando alívio aos cofres rubro negros: Entre 2020 e 2021, o clube embolsou cerca de 290 milhões de reais apenas com a saída de Gerson, Rodrigo Muniz e Reinier. Com a maior torcida do Brasil, o Flamengo deve continuar sendo o clube que mais arrecada, e, quanto mais dinheiro entrar, maior a possibilidade de investir e seguir no topo do futebol brasileiro.

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A venda de Gerson rendeu 25 milhões de euros aos cofres rubro negros. / CLEMENT MAHOUDEAU/Getty Images

Outro modo de equilibrar a crise é levar troféus. E isso Flamengo e Palmeiras fizeram bem. O clube paulista ficou atrás apenas do Flamengo na lista dos que mais tiveram redução na receita, com um déficit de mais de R$ 60 milhões. No entanto, o alviverde foi campeão da Copa do Brasil e da Libertadores, recebendo premiações 'recheadas'. Caso o Inter tivesse ganho o Brasileirão e o Santos, a Libertadores, o verdão e o rubro negro estariam em situações piores do que atualmente.

Mas qual saída essas instituições teriam? Em conversa com a reportagem, o consultor de gestão e marketing esportivo Amir Somoggi ofereceu um caminho a ser trilhado:

"Os clubes precisam sair do modelo analógico que vivem e ir para o mundo digital. Não postando em redes sociais dando dinheiro para o insta e Twitter. Mas criando modelos de negócios digitais sólidos com novas receitas que devem ajudar as suas finanças", comentou Amir.

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Em premiações em 2020, o Palmeiras arrecadou cerca de R$ 130 milhões. / MAURO PIMENTEL/Getty Images

As dívidas

Se as receitas na pandemia diminuíram, as dívidas dos clubes, por outro lado, cresceram. O Botafogo, que há alguns anos liderava o ranking de endividamento, caiu para a quarta posição, ficando atrás do Atlético Mineiro, em primeiro, Cruzeiro, em segundo, e Corinthians, em terceiro lugar.

Nas dívidas, o Galo é o grande destaque; De 2019 para 2020, viu sua dívida saltar de R$ 746 milhões para R$ 1,3 bilhão. O clube mineiro tem o terceiro elenco mais caro da Série A, além de possuir a terceira maior folha salarial do futebol brasileiro. Apesar de receber auxílio financeiro de de seus investidores, o alvinegro gasta muito, e dificilmente terá a dívida bilionária 100% quitada. Mesmo que o clube levante troféus, a receita não é suficiente e a torcida não engaja como as dos times como o Flamengo e Corinthians. A situação do Galo é complicada e especula-se que as despesas do alvinegro tomarão rumo empresarial e que poderão ser trocadas por serviços e ações, como já aconteceu com o Banco BMG que zerou o déficit de R$ 150 milhões que o Atlético devia em troca do emblema do banco na camisa por 6 anos.

"O mercado brasileiro não tem regulação alguma, a  CBF é uma piada... nem presidente temos, com a saída do atual. Uma liga também não temos, assim tudo é permitido. O que ocorre no Palmeiras com a Crefisa e CAM com os 4 R´s jamais seria permitido em uma liga americana com regulação. La todos são bilionários e busca-se o equilíbrio esportivo. O CAM pode ate ser campeão, mas mesmo assim a dívida é impagável. E a receita é muito baixa. A torcida é engajada mas muito menor que de outros times rivais como Flamengo, Palmeiras, São Paulo e Corinthians. Especula- se que os 4 R´s um dia serão os donos de uma futura S.A., trocando as dividas por ações", completou Somoggi.

Apesar do cenário financeiro caótico, o clube fez grandes contratações que pareceram vingar e agradar aos torcedores. O atual campeão mineiro faz ótima campanha na temporada; É líder isolado do Campeonato Brasileiro e está na semifinal da Libertadores e da Copa do Brasil.

A exceção de Red Bull Bragantino

Se de um lado, manter as contas em dia é um desafio para a maioria dos clubes brasileiros, por outro, o Red Bull Bragantino não encontrou as mesmas dificuldades. Como tem orçamento fechado, independe de receitas com bilheteria e TV, sendo o único entre os clubes da Série A e B que não fez redução salarial na sua equipe.

Esperança e volta da torcida

Flamengo v Gremio - Copa do Brasil
Partida entre Flamengo e Grêmio recebe público no Maracanã pela Copa do Brasil. / Wagner Meier/Getty Images

Apesar das polêmicas envolvendo o retorno precoce de torcedores nos estádios em 2020, a situação parece finalmente melhorar. Com o avanço da vacinação e de acordo com a flexibilização de cada estado, o Campeonato Brasileiro caminha para o retorno das partidas com público, mas, com capacidade reduzida.

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