Paulinho assina carta contra intolerância religiosa e critica Governo brasileiro: “Eu confio na ciência”

Paulinho em campo pela seleção brasileira sub-17.
Paulinho em campo pela seleção brasileira sub-17. / MARTIN BERNETTI/Getty Images
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Como um dos raros atletas que se declaram seguidores de religiões de matriz africana, o atacante Paulinho, do Bayer Leverkusen, escreveu uma impactante carta ao The PlayersTribune, em que reforça a necessidade de se combater o preconceito religioso no Brasil.

Integrante da seleção brasileira que disputará os Jogos Olímpicos de Tóquio a partir desta semana, ele explica que sua ligação com o candomblé e a umbanda vem de família, ressaltando como a crença o inspira no dia a dia de jogador.

Tenho muito orgulho da minha religião, que prefiro chamar de filosofia de vida. Cultuá-la me traz muita energia boa, muito axé. Exu é o caminho. Procuro saudá-lo antes de cada obrigação, de cada partida”, escreve o atacante revelado pelo Vasco.

Paulinho ainda justifica porque assume posicionamentos políticos publicamente. “Por tudo que nosso país já sofreu, temos não só o preconceito com religiões de matriz africana, mas também de outras naturezas, como de raça, gênero e orientação sexual. Hoje, milhares de pessoas me seguem nas redes sociais. Algumas delas me têm como exemplo. Enfim, sou uma pessoa que tem voz. Justamente por isso, quero que essa corrente de luta contra a discriminação siga se alongando”, afirma, deixando clara a motivação de suas postagens.

"Não interessa a crença. Cada um pode manifestar sua fé do jeito que bem entender. O que defendo, como uma pessoa que tem voz, é que eu não posso me dar o direito de permanecer calado. De não me posicionar diante de preconceitos e negligências."

Paulinho, ao The Players’ Tribune

Opositor ao Governo do presidente Jair Bolsonaro, o atacante não hesita em marcar posição contrária à gestão da crise sanitária no país. “Se sou crítico do atual Governo, é porque eu confio na ciência”, aponta o jogador, que, no início do ano, compartilhou um post pedindo o impeachment de Bolsonaro. “Todo mundo enxerga o que se passa durante esse um ano e meio de pandemia, todo o descaso com a saúde. Mesmo vivendo em outro continente, tenho pessoas queridas que moram no Brasil. Elas precisam de segurança, de amparo, de vacinas.”

Sem se intimidar com críticas e manifestações preconceituosas que recebe nas redes por se posicionar, Paulinho também revela como a mudança para a Europa, em 2018, ajudou a moldar sua percepção sobre a urgência de reivindicar avanços sociais no Brasil. 

“Depois que me mudei para a Alemanha, eu descobri que o nosso país ainda pode melhorar em inúmeros aspectos. ‘Ah, tá com a vida ganha...’. Isso é o que muitos dizem sempre que eu manifesto alguma opinião sobre política. Não importa se sou um jogador de futebol que atua no exterior. Nada a ver com dinheiro ou patriotismo. Eu faço parte da sociedade. Continuo sendo um cidadão brasileiro.”

A seleção olímpica estreia nos Jogos justamente contra a Alemanha, adversária na final da Rio-2016, nesta quinta-feira, às 8h30 (horário de Brasília). Para Paulinho, o sonho do bi na Olimpíada vai muito além do futebol.

“Rezo todos os dias para que Exu ilumine o Brasil e os nossos caminhos. Que os orixás nos dêem forças pra buscar essa medalha de ouro. O brilho dela seria um alento para o povo brasileiro após tantos meses de caos no país.”