Opinião

Fred, o ídolo autêntico e humano que resgatou a bela catarse que é ser Fluminense

Nathália Almeida
Fred, maior ídolo do Fluminense no século XXI, está se aposentando dos gramados
Fred, maior ídolo do Fluminense no século XXI, está se aposentando dos gramados / AFP/GettyImages
facebooktwitterreddit

Março de 2009.

Clube machucado, torcida abalada e uma ferida ainda aberta.

Poucos meses haviam se passado desde a maior derrota esportiva da história da instituição, o vice-campeonato da Copa Libertadores de 2008, contra aquele adversário que nenhum de nós, tricolores, gosta de mencionar.

Foi em meio a este cenário que você chegou ao Fluminense, com uma missão primária bem clara: devolver alegria às arquibancadas, que apesar de moralmente combalidas, seguiam apoiando, de norte a sul, as três cores que traduzem tradição.

Em seu primeiro ato como jogador tricolor, o Fluminense venceu. Venceu com o verde da esperança, sentimento este que, inevitavelmente, passou a transbordar em todo torcedor depois de seus dois gols anotados sobre o Macaé pelo Campeonato Carioca.

Supporters of Brazil's Fluminense celebr
Fred chegou ao Fluminense em março de 2009 / MAURICIO LIMA/GettyImages

A gente já sabia que marcar em estreias era sua especialidade, afinal de contas, você foi às redes na primeira partida por América-MG, Cruzeiro e até Lyon. Com o pavilhão tricolor, não seria diferente.

Nisso, realmente não seria diferente. Mas não podemos dizer o mesmo sobre tudo o que veio depois.

Sabe porque?

Por que sua história no Fluminense seria, sim, diferente de tudo.

Voltando da Europa para o futebol brasileiro aos 26 anos de idade, no auge de sua forma após anos espetaculares na Ligue 1. Aceitando a responsabilidade de ser o camisa 9 de um Fluminense ferido.

Mais uma prova de que coragem e personalidade eram duas de suas marcas registradas.

Fred
Fred foi um dos líderes da arrancada que evitou o rebaixamento tricolor em 2009 / Max Montecinos/GettyImages

Logo se tornou o capitão e o grande líder de um time que precisava se reconstruir emocionalmente. Sobrava talento, faltava a tranquilidade. Faltava o sangue frio. E isso quase foi o nosso calvário.

Afundados no Campeonato Brasileiro, parecia que nem mesmo o Gravatinha seria capaz de nos salvar do iminente rebaixamento à Série B naquele ano.

Eis que aquele jogo contra o Cruzeiro no Mineirão aconteceu.

Com dois gols que você não comemorou por respeito ao seu ex-clube - mas que nós comemoramos efusivamente -, viramos um confronto praticamente perdido e iniciamos a arrancada que consagrou o Time de Guerreiros.

Rimos da matemática.
Contrariamos a lógica.
Rejeitamos os prognósticos negativos.

E renascemos, sob a batuta do nosso camisa 9.

2009 acabou sendo a virada de chave e o despertar para uma redenção tricolor, no ano seguinte.

Em um enredo digno de cinema, fomos de virtuais rebaixados ao status de campeões brasileiros. O título que colocou ponto final em uma seca que já durava 26 anos.

Enfim, o Brasil voltava a ser pintado de verde, branco e grená.

Fluminense v Guarani -Serie A
Fred e Assis, dois dos maiores ídolos da história do Fluminense / Buda Mendes/GettyImages

Os sorrisos, é claro, voltaram às arquibancadas tricolores. E os corações distribuídos em profusão a cada gol marcado se tornaram o símbolo de uma história de amor: iniciada em 09, fortalecida em 10, consolidada em 11 e consagrada em 12, o ano do nosso tetra.

Você, artilheiro do país.
Carrasco no Fla-Flu do Centenário. Normal.
Herói no jogo do título, com dois gols no 3 a 2 sobre o Palmeiras.

O Brasil novamente verde, branco e grená. Na genialidade do nosso camisa 9.

Fluminense v Cruzeiro - Brazilian Serie A
Fred foi duas vezes campeão brasileiro pelo Fluminense: 2010 e 2012 / Buda Mendes/GettyImages

Ao mesmo em que nos brindava com conquistas e feitos esportivos, você, capitão, nos emocionava com sua grandeza de espírito e sua consciência de que um ídolo no esporte é feito não somente de troféus, mas principalmente de gestos.

Ídolo acessível, ensinou e conversou muito com a molecada que sonha em viver do futebol.

Ídolo autêntico, mostrou durante entrevista coletiva a nota fiscal que comprovava que a noitada anterior havia sido regada por 27 drinks, e não por 60, como a imprensa havia noticiado. Arrojado.

Ídolo humano, foi alicerce para o garoto Gabriel Varandas, torcedor mirim que venceu um grave tumor no cérebro tendo os seus gols como combustível. Você o abraçou, e hoje ele está curado.

Ídolo que sabe que nenhum atleta é maior que o clube, se despediu das Laranjeiras em 2016, de coração partido, mesmo quando o problema não era você.

"Não queria ser um peso para o Fluminense. Chegou a hora de sair da minha casa"

Fred, no adeus em 2016

Ídolo solidário, ajudou centenas de funcionários durante a pandemia de Covid-19, arrecadando e doando cestas básicas aos mais vulneráveis.

Ídolo atemporal, acertou seu retorno à casa em 2020, para escrever o capítulo final de uma das mais belas jornadas compartilhadas que o futebol brasileiro já viu.

Fred
Fred e Fluminense: uma história atemporal / MB Media/GettyImages

Juntos, ressignificamos a palavra impossível, conquistamos o país e comemoramos 199 vezes.

Dividimos alegrias, tristezas e abraços que só nós entendemos a profundidade e o significado, como aquele no pós-Copa do Mundo de 2014.

Se tornando um torcedor (como nós) dentro das quatro linhas, você, Fred, resgatou a bela catarse que é ser e viver Fluminense.

Então, no dicionário da bola, Fred passou a ser sinônimo de Fluminense. E vice-versa.

E se o Fluminense nasceu com a vocação da eternidade - célebre frase do ilustre Nelson Rodrigues -, neste sábado, dia do último ato do maior camisa 9 de nossa história, me permito uma justa licença poética que o dramaturgo tricolor possivelmente assinaria: Fred não passará, jamais.

Obrigada por tudo, Fred! #FredEtern9

facebooktwitterreddit