Dérbi da Catalunha: rivalidade desigual e história mais complexa do que parece marcam Barcelona e Espanyol

Rodrigo Salomao
Faixa da torcida do Barcelona para o Espanyol durante o clássico: "Somos o seu pesadelo"
Faixa da torcida do Barcelona para o Espanyol durante o clássico: "Somos o seu pesadelo" / Eric Alonso/MB Media/Getty Images
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"Somos o seu pesadelo". A faixa com o bandeirão, exibidos num imponente Camp Nou em março de 2019, davam o tom. O estádio do Barcelona não é lá dos territórios mais amigáveis para o Espanyol. Embora o tamanho dos dois clubes não seja sequer remotamente similar, a rivalidade local (e histórica) tem razão de existir. Para o time azul e branco, é quase sempre questão "de vida ou morte". Mas nesta quarta-feira, 8 de julho, será ainda mais.

RCD Espanyol v FC Barcelona  - La Liga
RCD Espanyol v FC Barcelona - La Liga / David Ramos/Getty Images

Último colocado na LaLiga com 24 pontos, o Espanyol visitará o Barça com a corda no pescoço. Não vencer o maior rival decretará seu primeiro rebaixamento dos últimos 25 anos. Um desfecho com requintes de crueldade ao clube que luta tanto por um lugar ao sol na Catalunha e que enxerga no gigante "coirmão" uma relação desigual e dolorosa:

"Para o Espanyol, o dérbi é o grande dia (ainda mais quando o Barcelona vai ao seu estádio visitá-lo). Mas aqui na cidade de Barcelona não se tem a sensação de que seja algo muito maior que isso, além do que um relacionamento ruim entre os dois clubes. Porque no fim das contas o Espanyol tem sido menor que o Barça praticamente em toda a sua história. É um dérbi, mas como se fosse entre um irmão mais velho e um mais novo. Não é como em Madrid, onde o Atlético tem equiparado suas forças com o Real", conta Quim Ferré, jornalista do 90min Espanha e morador da Catalunha.

Referências à bandeira espanhola são comuns na torcida do Espanyol.
Referências à bandeira espanhola são comuns na torcida do Espanyol. / PAU BARRENA/Getty Images

A relação das duas instituições também vai além da bola e do que acontece nas quatro linhas. Como na faixa mencionada no primeiro parágrafo, a independência catalã também faz parte do cardápio de debate entre os torcedores.

"No Barcelona, ​​eu diria que há mais entusiastas da independência, enquanto no Espanyol há uma maior parcela que defende a unidade da Espanha", apontou Ferré.

As manifestações políticas nas arquibancadas costumam aumentar quando o Barça recebe o rival de cidade no Camp Nou.
As manifestações políticas nas arquibancadas costumam aumentar quando o Barça recebe o rival de cidade no Camp Nou. / Soccrates Images/Getty Images

E mais do que isso: há muitos que discordam do fato de que o Barça tenha se tornado um símbolo esportivo quase monopolista da causa. Como um porta-voz. Tal ideia é reforçada inclusive entre os fanáticos pericos, que acreditam de fato que esse aspecto da politização fez com que os blaugranas tivessem mais espaço e mais repercussão na imprensa. É o que diz, por exemplo, o alviazul Carlos Iglesias, em seu relato retirado do livro "À Sombra de Gigantes", de Leandro Vignoli:

"Obviamente que eles (Barcelona) são o clube maior, mas na Catalunha a imprensa esportiva é somente 'Barça, Barça e Barça'. Sobre o Espanyol, é sempre algo negativo, quase como se a gente não fosse um clube catalão. O Barcelona é um clube muito político e claramente toda mídia da Catalunha comprou essa ideia", afirmou o torcedor do Espanyol.

Quim Ferré foi na mesma linha, ao contar como é a cobertura da mídia para a partida:

"Para a imprensa e para os culés não tem comparação com El Clásico. Contra o Real Madrid é o jogo do ano. Contra o Espanyol é um irmão mais novo com raiva querendo tocar seu nariz. Em termos de mídia, a cobertura não é maior do que qualquer jogo-chave do Barcelona. Jogos contra o Atlético, Valência ou Sevilla talvez tenham maior repercussão devido à dificuldade, mais do que a rivalidade em si com o Espanyol. Há alguma importância na foto prévia dos treinadores e na refeição entre as diretorias, mas nada muito além disso", concluiu.

A discussão não é tão simples quanto parece. A história política deste duelo esportivo tem um outro lado pouco abordado. Há na cidade uma linha de nacionalistas catalães que enxergam no Espanyol o real sentimento patriótico. Além de ter sido o primeiro clube da liga a ter majoritariamente jogadores catalães no elenco, muitos entendem que há um discurso de demagogia por parte do FC Barcelona. Segundo eles, os culés não realizam ações concretas pela independência, além de o clube ser repleto de estrangeiros no plantel, o que seria uma contradição. Há muito pano pra manga fora de campo.

Mas, dentro das quatro linhas, com o Espanyol terminando apenas três vezes à frente de seu maior oponente na liga em mais de 70 anos, fica claro por qual razão a rivalidade vem muito mais de um lado do que de outro. Uma distância que os atuais 49 pontos de diferença na tabela talvez expliquem melhor do que qualquer artigo.

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