Diversidade e inclusão

Carlos, Fernando e Márcio: uma genuína história de transformação na Unified Cup

Lucas Humberto
Entre heróis e ídolos, o esporte se consolida como uma potência capaz de mudar os rumos da existência
Entre heróis e ídolos, o esporte se consolida como uma potência capaz de mudar os rumos da existência / Paul W Harvey IV / Special Olympics
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Carlos Augusto é um senhor de muitos irmãos e muitos filhos. Forte por natureza. Não por acaso nasceu com seis quilos. A inconformidade está gravada em seu DNA. Esportivo e humano, diga-se de passagem. Ele descreve a carreira no futebol como curta. E talvez tenha sido. Pelo menos dentro das quatro linhas. Para nossa sorte, a capacidade transformadora do esporte vai muito além.

Fernando Augusto é um dos muitos filhos de Carlos. Torcedor de Real Madrid, Liverpool e Flamengo, o jovem de 20 anos é atacante, goleador, autista e, pelo que nós podemos perceber, um líder nato em campo. Suas inspirações são Steven Gerrard, ídolo do Reds, e Alfredo Di Stéfano, um dos mais lendários nomes dos Blancos.

Márcio Crispim estava ansioso. Em nossa conversa, às vésperas da viajar para Michigan, em Detroit, nos Estados Unidos, o meio-campista de 19 anos, que se inspira em Neymar, contou um pouco sobre a parceria com Fernando Augusto: "Dentro de campo, a gente também se dá muito bem, já dei muita assistência para ele".

Fernando e Márcio, jogadores do Brasil na Unified Cup 2022
Fernando e Márcio no lado inferior direito / Marco Catini / Special Olympics

Esporte, idolatria, diversidade, grandiosidade... a conexão parece óbvia, certo? E realmente é. Justamente por isso nós vamos te contar como o caminho de três pessoas tão distintas se conecta em pura sinergia e catarse.


Carlos, Fernando e Márcio: uma história de fibra, grandiosidade e transformação

Carlos, como nós te contamos antes, é um inconformado nato. Na tenra juventude, precisou superar um problema nas pernas. "Era dado que eu nem poderia praticar o futebol". E ele, desafiando as lógicas e os prognósticos - assim como nas melhores histórias esportivas já escritas -, praticou e foi longe. No meio do caminho, entre as divisões de base, nosso personagem conheceu o Juventude.

A equipe vinha de uma favela no Parque Leopoldina. Carlos recebeu um chamado irrecusável. A intenção do projeto social era, por meio do futebol, transformar a favela em comunidade. Deu muito certo. Foram dois campeonatos consecutivos conquistados pelo time, novos participantes e a celebração do respeito. "Ninguém falava mais em favela. Nosso trabalho teve êxito. A meta era essa".

A carreira de Carlos Augusto foi interrompida pela mais implacável das causalidades: a vida. Em um determinado momento, ele precisou escolher entre a incerteza inerente ao cotidiano dos futebolistas e a estabilidade de um emprego corporativo. Ele optou pela área petrolífera. Se fosse hoje, o caminho provavelmente seria diferente.

Fernando, filho do ex-jogador Carlos Augusto
Fernando, filho do ex-jogador Carlos Augusto / Marco Catini / Special Olympics

"Hoje o jogador de futebol é bem mais assistido, tem muito direito. Ele tem toda a formação voltada para quando chegar ao profissional ser bem remunerado, ser bem atendido caso precise fazer  cirurgia, tratar uma contusão mais grave. Na minha época não era assim. Então fiz uma opção para ter uma estabilidade para poder cuidar da minha família. E não me arrependo", contou.

As idas e vindas de um pai e um filho

A vida, implacável como é, não quis tirar Carlos de perto do campo. Fernando Augusto, um dos filhos do ex-jogador, também se apaixonou pela bola. Como a história se repete mais vezes do que estamos preparados, a caminhada do filho também teve uma dose de idas e vindas. "Minha infância foi muito complicada", explica.

"Os professores achavam que eu não conseguia ler, que eu não conseguia fazer exercício", completou. "Graças a Deus minha mãe me colocou em uma escola muito boa, muito humilde, que começou a me respeitar. Eu passei nessa escola e acabei me formando", seguiu. Hoje, o jovem cursa Ciências Sociais na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

Aos 6 anos, Fernando foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A condição, normalmente identificada na infância, pode gerar alterações na comunicação, dificuldade de interação social, mudanças comportamentais, além de padrões restritos e repetitivos, como movimentos contínuos, interesses fixos, entre outros.

"Ele tirou 680 pontos na redação do Enem", detalhou Carlos no melhor estilo pai orgulhoso. "Isso foi fruto de muito trabalho com ele. Levando ele para todos os projetos possíveis, porque o autista você não tem que escondê-lo. Você tem que mostrar ele para a sociedade, para que ele possa ter o direito de escolha", completou.

Fernando e Márcio durante a Unified Cup 2022
Fernando e Márcio durante a Unified Cup 2022 / Marco Catini / Special Olympics

Foi nesse contexto de transformação social que veio o Paraesporte, um projeto de Campo Grande, no Mato Grosso, desenvolvido pelo ex-atleta Raphael Thuin. A inclusão no projeto permitiu a Fernando aprimorar um dom natural. "Ele já fazia balãozinho com três anos", narra o mais experiente dos nossos personagens.

"Não tive medo, nem eu nem a mãe dele, de levá-lo para lugar nenhum.  Nós o levamos para todos os lugares possíveis para poder mostrar ele para a sociedade. E, hoje, Graças a Deus, ele está sendo referência para outros autistas"

Carlos Augusto ao 90min

A união de laços, histórias e vivências

Batman e Robin, Thelma e Louise, Woody e Buzz Lightyear, João Grilo e Chicó, Frodo e Sam... se o cinema por vezes funciona em parcerias, a vida também acompanha. Márcio Crispim é a dupla de Fernando. Meia e atacante, respectivamente. Ambos membros do Paraesporte. Em pouco mais de um ano, Márcio, aos 19, aprendeu lições que valem por existências inteiras.

Márcio, meio-campista do Brasil na Unified Cup
Camisa 5, Márcio atua no meio-campo / Marco Catini / Special Olympics

"Se você vir alguma pessoa que tem alguma dificuldade, você sempre precisa trazer ela para perto, ser amigo dessa pessoa. Incluí-la. Não deixá-la de lado". Não à toa Márcio Crispim e Fernando Augusto foram co-capitães da Seleção Brasileira durante a Unified Cup 2022, que aconteceu em Detroit, entre os dias 31 de julho e 6 de agosto. Lembra da ansiedade da viagem? Pois é.

A competição recebeu mais de 300 jogadores de futebol de mais de 20 nações diferentes. Durante o evento, atletas com e sem deficiência intelectual atuaram juntos. Diversidade, inclusão e esporte. Três palavras que mudam tudo. Nossos personagens também. Em terreno de Di Stéfano, Gerrard e Neymar, a maior das grandiosidades foi contada por um pai, um filho e um amigo.

"Eu quero incentivá-los a vencer até o fim", respondeu Fernando ao ser questionado sobre seu papel como co-capitão na Unified Cup. E quem ousaria dizer que eles não venceram? Quando a inconformidade de um pai se encontrou ao talento de dois amigos, o esporte cumpriu o mais genuíno dos seus propósitos: o de transformar. Não há vitória maior que essa.

Fernando e Márcio durante a Unified Cup 2022
A Unified Cup 2022 é a prova da capacidade transformadora do esporte / Marco Catini / Special Olympics

O Brasil estreou no Unified Cup no dia 1 de agosto. Na data, o time venceu os Estados Unidos por 3 a 0, e perdeu para a Nigéria no confronto seguinte, por 3 a 1. Em 2 de agosto, a equipe empatou com o Marrocos, em 2 a 2, e depois aplicou incríveis 6 a 0 na Coreia do Sul. No dia 4, perdeu para o Paraguai, por 1 a 0.

A recuperação, contudo, veio logo no dia seguinte, 5. A vitória diante do Marrocos, por 1 a 0, deu a Fernando e Márcio a possibilidade de celebrar a medalha de bronze. Na grande decisão, a Jamaica venceu o Paraguai, por 2 a 0.

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