Reportagem especial

Aquisição do Newcastle reacendeu debate sobre sportswashing - e nós precisamos falar sobre isso

Lucas Humberto
Compra do Newcastle reacendeu discussão sobre a participações de fundos sauditas na modalidade mais prestigiada do mundo
Compra do Newcastle reacendeu discussão sobre a participações de fundos sauditas na modalidade mais prestigiada do mundo /
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Empresas, dinheiro e futebol. Três substantivos que, de tão interligados, nem sabemos onde inicia um e termina o outro. Torcedores mais experientes vão se lembrar bem de um nome pra lá de popular nos anos 90: Parmalat. Fundada na província italiana de Parma, a companhia de laticínios protagonizou uma das parcerias de maior sucesso da modalidade em solo brasileiro.

O acordo com o Palmeiras ia muito além do simples patrocínio na camisa. Envolvia administração, contratação de reforços renomados e cifras que certamente pagariam folhas salariais inteiras de times mais modestos. Então, se há uma antiga relação entre instituições privadas e esportivas, pactos semelhantes não deveriam ser mais naturalizados?

Acontece que, normalmente, quando sobram dinheiro e relações de poder, falta humanidade. E é exatamente a partir desse ponto que vamos contar nossa história. Ou melhor, do Newcastle United, novo bilionário da Premier League. O tradicional clube foi comprado por cerca de 300 milhões de euros através de um consórcio liderado pelo Fundo Público de Investimento da Arábia Saudita (PIF, na sigla em inglês) e, como era de se esperar, causou intenso burburinho.

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"Não exigimos um clube que vença, exigimos um clube que tente", em tradução livre. / PAUL ELLIS/GettyImages

Quando esmiuçamos os detalhes da aquisição precisamos, antes de tudo, entender que os esforços econômicos podem contemplar dois universos não tão distintos assim: fazer dos Magpies uma potência esportiva e limpar a imagem da Arábia Saudita no cenário europeu. Precisamos entender que toda a estratégia de relações públicas foi pensada com a exatidão de quem não permite erros de cálculo.

O desgaste do ex-dono Mike Ashley, a torcida apaixonada, as glórias do passado. Tudo fluiu como o dinheiro queria. Mohammed Bin Salman, príncipe-herdeiro da Arábia Saudita e presidente do conselho do PIF, não esconde que o esporte será um dos braços do seu trabalho. Afinal, antes mesmo da aquisição de 80% dos direitos do Newcastle, havia uma gama de eventos esportivos agendados no país.

"Para o PIF, um dos investidores de maior impacto do mundo, a aquisição está de acordo com a sua estratégia de focar em setores-chave, incluindo Esportes e Entretenimento, e se alinha com a missão do PIF de investir em longo prazo – neste caso, para incentivar o potencial do clube e construir em cima do legado do clube"

Newcastle em comunicado
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Parte da torcida celebrou a venda do clube / Ian MacNicol/GettyImages

As meticulosas palavras do comunicado talvez só tenham esquecido de citar que o acordo envolve malas de dinheiro marcadas pelo autoritarismo, ataque aos direitos humanos, pena de morte para homossexuais, opressão às mulheres etc. Diante de tais constatações, o debate sobre sportswashing foi reacendido. E é justamente sobre ele que vamos falar.

Limpeza da imagem ou lavagem de dinheiro?

Sportswashing. Apesar da pronúncia cheia de requintes, o conceito não é nada complicado. Em suma, a palavra faz referência ao fenômeno da limpeza da imagem de regimes autoritários por meio da sua participação no esporte. Para Rodrigo Couto, historiador, palmeirense, colecionador de camisas clássicas e apaixonado por futebol, tal limpeza fica restrita ao campo da teoria.

"Não creio que seja uma forma da Arábia Saudita limpar o nome dela na Europa, porque o regime autoritário não vai mudar por conta da questão do dinheiro. O dinheiro ele é importante porque ele cala a boca de muita gente, principalmente das federações esportivas"

Rodrigo Couto ao 90Min

"A Premier League agora recebeu garantias legalmente vinculantes de que o Reino da Arábia Saudita não controlará o Newcastle United Football Club", afirmou a liga em comunicado. Ainda estamos tentando entender até que ponto esse tipo de alegação é levada a sério.

Em março de 2019, a própria Premier League iniciou uma investigação para averiguar uma suposta violação do fair play financeiro por parte do Manchester City. As principais suspeitas residem na possibilidade do clube ter disfarçado investimentos do Sheikh Mansour bin Zayed Al Nahyan como renda de patrocínio, segundo papéis divulgados pelo jornal alemão Der Spiegel após vazamento do Football Leaks.

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Sheikh Mansour é dono do Manchester City / ANDREW YATES/GettyImages

Entre defesas, papeladas, tribunais e legislações, as burocracias parecem estar longe da resolução. Do início das discussões até os dias atuais, os Citizens não pararam de crescer. Pelo contrário, da conquista da Inglaterra à final da Champions League, o time de Pep Guardiola flerta com reforços cada vez mais renomados. Na última janela de transferências, por exemplo, colocou quantias milionárias em jogo para tirar Harry Kane do Tottenham.

"Até então, como é até hoje com o Chelsea e Manchester City, a gente não vê uma investigação aprofundada sobre os investimentos. Então não vai acontecer com o Newcastle", pontua Rodrigo Couto. "Esses regimes autoritários estão longe de acabar naquela região. Enquanto houver petróleo, enquanto houver dinheiro regendo a vida do povo, não terá nenhuma 'forçação' de barra porque querem limpar a visão da Europa e do mundo sobre eles", completou.

Rodrigo ainda chama atenção para outro fator que contribui para o silêncio perante questões de ataques aos direitos humanos: qualidade de vida da população. "Uma sociedade que é bem assistida não vai se voltar contra o governo".

Em dezembro de 2020, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) divulgou o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) referente ao ano de 2019. À época, a Arábia Saudita aparecia na 40ª colocação, com índice de 0,854, considerado alto. O Brasil, por sua vez, apareceu no 84º lugar (0,765).

Em suma, o índice mede o desenvolvimento de uma determinada sociedade no âmbito da educação, saúde e renda. Sabemos que os números não costumam mentir, mas nada substitui o bom e velho relato de vivência humana, certo? Em abril deste ano, a brasileira Iris Cajé, que vive na Arábia Saudita há pouco mais de seis anos, contou sua experiência no país ao portal UOL.

Ela, que compartilha seu cotidiano nas redes sociais, relata que a liberdade no local ainda é muito cerceada. Contudo, Iris destaca que, entre os pontos positivos, a qualidade da segurança e da saúde é muito superior ao que costuma ser visto no Brasil. Em seu Instagram, Cajé tenta constantemente desmistificar algumas tabus:

Apesar das questões citados, não é raro ver a Arábia Saudita no centro de polêmicas que envolvem pouca diplomacia e muita violência. Em 2018, Jamal Khashoggi, um jornalista crítico ao regime autoritário instaurado no país, foi morto. Mohammed Bin Salman, dono do Newcastle, foi apontado como mandatário do assassinado e esquartejamento da vítima. Ele nega.

Outras marcas sangrentas do governo local são os frequentes bombardeios às áreas de refugiados no Iêmen. A Guerra Civil, aliás, se arrasta desde meados de 2015. Então, o que vale mais: fechar os olhos para mortes de inocentes em prol de pequenos avanços e dinheiro injetado na Premier League ou se levantar deliberadamente contra a participação do país no futebol?

Embora a resposta pareça depender do julgamento subjetivo de cada um, Rodrigo garante que as cifras falam mais alto: "Eles [a Arábia Saudita] não estão querendo ficar bem ou mal não, é a força do dinheiro, a população continua a ser subjugada pelos governos autoritários".

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Mohammed Bin Salman acumulou feitos controversos nos últimos anos / Anadolu Agency/GettyImages

E, se depender de movimentações recentes, a prática está longe de acabar. Para Harry Symeou, jornalista do 90min inglês a tendência deve se alastrar rumo aos outros mercado europeus: "Não é segredo que o PIF está interessado em vários clubes. Anteriormente, eles mostraram interesse no Manchester United e conversaram abertamente com o Grupo Suning, dono da Inter de Milão na Itália. É quase certo que veremos mais aquisições de consórcios apoiados pela região do Oriente Médio".

Perspectivas de quem já respira tradição

Caso as previsões de Jürgen Klopp se concretizem e o Newcastle de fato exerça "um papel dominante no futebol mundial pelos próximos 20 ou 30 anos", você pode vir a escutar narrativas do tipo: "como os Magpies saíram do desconhecimento ao topo da Inglaterra" ou ainda "como a compra do clube criou tradição no St. James' Park". Não acredite nisso.

O Newcastle respira tradição há décadas, embora tenha seus grandes feitos restritos ao passado. O título mais recente, por exemplo, foi a taça da FA Cup conquistada na temporada 1954/55. Apesar dos anos da mais pura seca, os Magpies já são tetracampeões nacionais. O PIF não comprou um time pequeno na intenção de tirá-lo do buraco.

O potencial do Newcastle não é desconhecido. Ele apenas foi massacrado por um homem de negócios que não soube gerir. As efusivas comemorações que acompanharam a venda do clube talvez digam muito mais sobre o adeus de Mike Ashley, que adquiriu a instituições esportiva em 2007, do que sobre as próprias perspectivas futuras.

Nos últimos 14 anos, foram dois rebaixamentos, nove campanhas do principal torneio nacional encerradas entre o 10º e o 16º lugar e uma administração que parecia não se importar com os rumos do time. Potencial desperdiçado? Dane-se. Essa foi a postura debochada do cartola, que nunca trabalhou em prol da modernização dos Magpies. Sob tutela de Mike, o clube nunca saiu da década de 70, mesmo nomes como dos treinadores Rafa Benítez e Alan Pardew tendo tentando desesperadamente provar o contrário.

Agora, enquanto tenta sair do buraco, há gigantes consolidados, times modestos que flertam com a grandiosidade e equipes em franca ascensão. O desafio está apenas começando. "Acho que será muito mais difícil para o Newcastle desafiar logo o topo da Premier League, visto que Manchester City e Chelsea já se estabeleceram como superpotências e Liverpool e Manchester United também são fortes candidatos às quatro primeiras posições", aponta Symeou.

"Quando o Chelsea foi assumido por Roman Abramovich, eles tinham apenas Arsenal e Manchester United para diminuir a diferença, então foi mais fácil dar esse salto", completa o jornalista. Apesar disso, a torcida faz aquilo que está acostumada a fazer: mantém a esperança acesa. Marco Pastore, Magpie de longa data, avaliou a aquisição como positiva, apesar dos pesares.

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Yasir Al-Rumayyan, governador do PIF, será presidente não-executivo do Newcastle / Robbie Jay Barratt - AMA/GettyImages

"Como torcedor eu realmente enxergo com ótimos olhos. Por quê? De um lado a gente tem Mike Ashley, ex-proprietário do Newcastle que era um péssimo gestor, faltava comprometimento com o clube e também faltava com investimento pro clube. O Newcastle nos últimos anos recebeu um investimento muito baixo do seu proprietário. E aí a gente vai ter do outro lado um fundo de investimento saudita que realmente vai ter o que o clube mais precisa no momento: dinheiro pra montar uma equipe forte e que volte a brigar pela parte de cima da tabela"

Marco Pastore ao 90min

Ele não está errado. O time tem como contratação mais cara da história o brasileiro Joelinton, ex-Sport Recife. Os cartolas do clube desembolsaram 44 milhões de euros para tirá-lo do Hoffenheim, da Alemanha. A aposta, no fim, não se mostrou tão frutífera assim, afinal, o jogador não correspondeu tanto em termos técnicos e os supostos investimentos de Ashley pararam por aí.

Pastore acredita que os torcedores aceitaram a compra de forma tão positiva por ser uma espécie de "luz no fim do túnel". "O Newcastle é grande sim, é um clube tradicionalíssimo na Inglaterra. O Newcastle tem como seu maior ídolo o maior artilheiro da Premier League (Alan Shearer). O clube teve como torcedor e técnico o melhor e maior treinador inglês de todos os tempos, que foi Sir Bobby Robson. Então, como torcedor, acho que realmente vai ser muito importante porque o time vai voltar a estar no patamar tanto da mídia quanto social que merece".

Newcastle Premier League Sportswashing
Newcastle respira tradição nos gramados ingleses / James Gill - Danehouse/GettyImages

Fenômeno de sportswashing ou não, a compra está feita e as listas de reforços começam a surgir na imprensa estrangeira. Symeou avalia: "A realidade é que eles [o PIF]não são os primeiros a fazer isso e não serão os últimos". Resta saber se o preço pago vale a pena ou, melhor ainda, se múltiplos erros somados são capazes de resultar num acerto. Isso apenas o tempo irá determinar.

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