​Dia 21 de março é conhecido como Dia Internacional da Luta contra a Discriminação Racial. A data foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em memória às vítimas do trágico Massacre de Joanesburgo, ocorrido neste mesmo dia, há 60 anos: em 21 de março de 1960, 69 negros foram mortos e outros 186 ficaram feridos, vítimas da repressão policial direcionada a um protesto pacífico pelo fim do regime separatista e segregador que vigorava na África do Sul, o Apartheid. Seis décadas após este lamentável episódio de nossa história enquanto sociedade, o racismo ainda é uma realidade bruta mundial, em especial nas Américas.


Inexplicável, inaceitável e intolerável em todas as suas formas/manifestações, o racismo precisa ser combatido em todas as áreas e campos. No futebol, também e especialmente. Isso porque o esporte que mais amamos foi construído, moldado e solidificado pelo negro: no início do século XX, as práticas esportivas eram formas de lazer direcionadas exclusivamente às elites. O turfe era muito forte no Rio de Janeiro, mas não alcançava as camadas populares. O mesmo pode ser dito dos primórdios da prática futebolística, mas essa lógica mudou a partir da construção identitária de um clube específico... O Bangu.


O Bangu Atlético Clube e o pioneirismo negro

Bangu v Fluminense - Rio State Championship 2011

Ainda que o senso comum tenha 'comprado' a versão de que o ​Vasco da Gama foi o primeiro clube a incorporar jogadores negros em seu elenco, esse mérito pertence ao Bangu. Fundado em abril de 1904 por operários da Fábrica Bangu, o Alvirrubro inaugurou o futebol integrado e popular, com brancos e negros, imigrantes e fluminenses [naturais do Estado do Rio]. A equipe formada por trabalhadores fabris de diferentes cores e origens chocou a estrutura vigente, em que o futebol ainda era praticado por e para a aristocracia branca. Diversos vetos e restrições foram impostos ao Bangu por sua posição vanguardista: proibido de registrar jogadores negros, abandonou a Liga Metropolitana - primórdios de uma Federação Carioca -, e passou três anos sem disputar o Campeonato Estadual. 


Segregação e luta pela profissionalização

Uruguayan forward Juan Alberto Schiaffin

Com seu 'plantel' formado por operários-jogadores, o Bangu tornou-se uma força esportiva no cenário fluminense e, também, uma ameaça aos clubes aristocráticos. Enquanto a segregação era a lógica da maioria, o Alvirrubro era construído pela pluralidade. Ao democratizar o acesso, a prática futebolística em si e seu consumidor (torcida), o clube da Zona Oeste deu o 'pontapé inicial' para uma grande mudança na estrutura desse esporte: a transição do amadorismo para a profissionalização. Clubes ainda resistentes a contar com jogadores negros em seus plantéis perceberam que ficariam para trás. Vencer, com o passar dos anos, passou a ser fundamental para a sobrevivência do esporte, e para conquistar vitórias, era preciso ter os melhores atletas. E os melhores jogadores, sim, eram negros: Arthur Friedenreich, Manuel Nunes e o Domingos da Guia, o Divino Mestre, ilustram isso nos anos 20/30.


O racismo moderno: as hierarquias e o 'alto protagonismo' negado

Roger Machado

Todo esse contexto histórico trazido nos parágrafos anteriores serve para ilustrar como o futebol brasileiro nasceu e se desenvolveu sob os ombros, mãos e pés do negro. Através de muita luta por respeito e igualdade - em todos os campos sociais -, o racismo escancarado e baseado em leis de segregação deixou de existir no futebol brasileiro. Contudo, o racismo 'velado' está longe de ser abolido: ele se manifesta especialmente nas hierarquias e nas estruturas de poder.


Pelé é o maior jogador de todos os tempos. Mas o país de Pelé, em 2019, contabilizava apenas 3% de cargos de gestão/administração de clubes (​Série A) sendo ocupados por negros. Roger Machado, ​em entrevista espetacular, levantou esse questionamento: por que temos tão poucos treinadores negros no futebol brasileiro? A explicação está em nossa própria sociedade, ainda marcada por suas raízes escravocratas: ao negro, o trabalho braçal; ao branco, o intelectual. 


Nesse Dia Internacional contra a Discriminação Racial, queremos não só o fim dos abomináveis cânticos e outras manifestações racistas que ainda se proliferam nas arquibancadas, brasileiras e mundiais. Queremos, também, que o protagonismo negro ultrapasse as fronteiras das quatro linhas e se manifeste em mais e mais posições de prestígio, dentro do universo do futebol, do esporte e das demais áreas de conhecimento/atuação.


Crédito da foto de cobertura: Thiago Ribeiro/AGIF