Coirmãos, Flamengo e Fluminense sempre viveram em uma relação de amor e ódio, dentro e fora de campo, do Norte ao Sul do Brasil... em uma história centenária com origem no Rio de Janeiro. O Fla-Flu surgiu em uma mescla de rivalidade e poesia que torna o Clássico das Multidões em um dos embates mais charmosos e marcantes do futebol brasileiro.


Para o eterno Nelson Rodrigues, o Fla-Flu "começou quarenta minutos antes do nada”. Entretanto, oficialmente, o pontapé inicial que ‘despertou as multidões’ foi em 1912, quando o ​Clube de Regatas do Flamengo resolveu entrar no esporte da moda e lançou o seu time de futebol, formado, em sua maioria, por jogadores dissidentes do Fluminense. A debandada da base campeã de atletas gerou o primeiro atrito entre rubro-negros e tricolores.


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Desde então, o clássico movimenta milhões de pessoas em todo o país e faz parte dos mais diversos assuntos cotidianos, política, cultura, história, turismo, e, principalmente, sobre o esporte mais praticado no mundo, o futebol. O Fla-Flu é sinônimo da saúde e paixão antagônica entre os torcedores e gera competitividade em inúmeros âmbitos da vida, seja nas divisões de base, no profissional ou nas arquibancadas e demais assuntos extracampo, “é o aí, Jesus”.


Assim, ao longo dos quase 108 anos de existência, disputas e evoluções, o Fla-Flu caminhou, ganhou novas perspectivas e dimensões inimagináveis. O Clássico das Multidões foi dos modestos gramados da Gávea e das Laranjeiras ao Estádio Jornalista Mário Filho com mais de 190 mil torcedores e, por fim, ao mais novo e moderno Maracanã. A realidade mudou, entretanto, a ‘briga embrionária’ pelas divisões de base continua.


Das "Crias do Ninho" aos "Moleques de Xerém", os clubes sempre tiveram como um dos objetivos superar o arquirrival e mostrar que tem maior capacidade em revelar e produzir jogadores. A princípio, o desejo era apenas descobrir talentos para conquistar títulos e dar alegria aos torcedores. Entretanto, com tantas mudanças e com compreensões cada vez mais mercadológicas, o propósito também passou a ser de “lucrar” mais do que o coirmão.



Ao longo da história, a disputa extracampo teve momentos de soberania de um diante do outro – com preponderância do ​Fluminense. Entretanto, os valores não eram tão expressivos como nos dias atuais e a briga era menos “badalada” e repercutida. Eventualmente, com os milhões que passaram a circular no Ninho do Urubu e no CT da Barra nos últimos cinco anos, a competição ficou mais acirrada e ganhou novos capítulos.


A Fábrica de Talentos de Xerém sempre revelou grandes jogadores, como Marcelo, Thiago Silva, Fabinho, Pedro e tantos outros nomes de “peso”. O Tricolor das Laranjeiras tem uma das bases mais fortes e promissoras de todo o futebol brasileiro, de modo a servir como referência para outras equipes, inclusive, para o Flamengo. A reformulação das categorias inferiores do Fluminense – clube que durante muito tempo foi o único no Rio de Janeiro a ter uma estrutura exclusiva para os garotos – parece render frutos eternos.


Ano Jogador Destino Valor (em euros)
2015 Kenedy Chelsea-ING 8 milhões
2015 Biro-Biro Nanchang – CHI 1,3 milhões
2015 Gerson Roma-ITA 18,6 milhões
2016 Marlon Barcelona-ESP 5 milhões
2017 Eduardo Estoril-POR 25 mil
2018 Wendel Sporting-POR 7,5 milhões
2018 Aryton Lucas Spartak Moscou 7 milhões
2018 Douglas Corinthinas 1,02 milhões
2018 João Pedro Watford-ING 4 milhões
2019 Ibañez Chelsea-ING 3,95 milhões
2019 Pedro Fiorentina-ITA 11 milhões
# 11 jogadores # Total: 67 milhões


Em contrapartida, a dramática situação financeira do clube prejudica o rendimento e faz com que os valores decorrentes da venda de jogadores sirvam apenas para ​“tapar buracos”. Em extrema dificuldade para ir ao mercado e com poucos investimentos, o Time de Guerreiro depende das transferências para se manter de pé. Cruel, o mercado aproveita do cenário para pagar abaixo do preço. Refém, o Fluminense acaba se desfazendo facilmente de suas revelações e continua no mesmo contexto econômico.

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Por sua vez, o Flamengo seguiu o exemplo do rival Tricolor e reformulou todo o departamento das categorias de base e passou a ter ótimos resultados. Em 2014, a diretoria falava abertamente em igualar e até ultrapassar o percentual do Flu no quesito "venda de joias". Afinal, “Craque, o Flamengo faz em casa”:


"No dia em que o Flamengo passar o Fluminense neste campo, ninguém segura a gente", comentou certa vez Alexandre Wrobel, vice-presidente de futebol rubro-negro na ocasião.


No entanto, sem condições, o Rubro-Negro não aproveitava o potencial dos Meninos do Ninho e tinha que se desfazer dos garotos em pouco tempo e a baixo custo. A situação começou a mudar em 2014, com a retomada da construção do Centro de Treinamento George Helal, o Ninho do Urubu, e se fortaleceu com a saúde financeira do clube cada vez mais sólida.


Vinicius Junior

Após a recuperação monetária e estrutural da equipe, o Flamengo não só alcançou como superou, com sobras, o profícuo Fluminense – o conjunto administrativo, econômico e financeiro do arquirrival foi determinante para a “vitória no setor de vendas”. Até o momento, o Rubro-Negro arrecadou mais do que o dobro que Time de Guerreiros entre 2015 e 2020. A situação seria praticamente impossível em outros momentos, especialmente antes de 2013.


Ano Jogador Destino Valor (em euros)
2015 Samir Udinese-ITA 4 milhões
2017 Jorge Monaco-FRA 8,5 milhões
2017 Vinicius Júnior Real Madrid-ESP 45 milhões
2018 Lucas Paquetá Milan-ITA 38,4 milhões
2018 Felipe Vizeu Udinese-ITA 5 milhões
2019 Léo Duarte Milan-ITA 10 milhões
2019 Jean Lucas Lyon-FRA 8 milhões
2019 Matheus Savio Kashiwa Reysol – JAP 1 milhão
2020 Reinier Jesus Real Madrid-ESP 30 milhões
# 9 jogadores # Total: 149,9 milhões


Em resumo, o Flamengo apanhou muito nas últimas décadas e soube aprender como é “fazer futebol” na atualidade. O recorte dos últimos cinco anos mostra como o Rubro-Negro cresceu em relação ao Tricolor e, de modo geral, aos times brasileiros. Já ao Fluminense, cabe olhar os resultados do coirmão e aprender, com seriedade e organização, para que o Fla-Flu siga como um dos duelos mais encantadores do Brasil. Os rendimentos estão aí e o exemplo deve ser seguido.


Os Moleques de Xerém merecem mais e o Fluminense pode mais. O Flamengo não fez mágica, mas precisou abdicar de vaidades para arrumar a casa. O Tricolor das Laranjeiras tem o exemplo em mãos e conhece o caminho. Agora é saber qual vai ser o trajeto tomado.