​O resultado esportivo pode não ter sido o esperado, afinal, a Seleção Brasileira teve o sonho do título mundial inédito novamente adiado após ser eliminada nas oitavas para a França (veja o resumo deste jogo ​aqui). Contudo, esta Copa do Mundo Feminina de 2019, que já não conta mais com o Brasil entre suas postulantes, tem enorme potencial para se consolidar como a mais importante da história do ​futebol feminino brasileiro, dependendo apenas de como suas heranças serão exploradas e trabalhadas pelas instituições que estão ao entorno da modalidade. Explicaremos a seguir.


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​​Em primeiro lugar, esta Copa do Mundo serviu para quebrar, definitivamente, o paradigma da não-atratividade do futebol feminino. Com uma cobertura um pouco mais atenciosa e amplificada, emissoras de televisão registraram, jogo a jogo, novos recordes de audiência. A partida entre França e Brasil registrou 31 pontos de média com picos de até 36 na grande São Paulo - informação do ​Observatório da Televisão -, estatística que confirma este duelo como o de maior audiência na história da modalidade, em solo brasileiro. A excelente resposta popular, fosse com as televisões ligadas ou com o enorme engajamento nas redes sociais, evidencia que o interesse existe e sempre existiu, mas nem sempre esteve acompanhado de incentivo por parte da imprensa e dos canais de comunicação, negligentes às meninas.

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Se há interesse em grandes proporções - a ponto de 50% das televisões brasileiras estarem ligadas durante os jogos da Seleção neste Mundial -, há potencial comercial a ser explorado neste esporte. É preciso, no entanto, que as federações locais e clubes tirem lições desta competição, criando ações efetivas para que a comoção emergente não se esvaia: valorização dos campeonatos nacionais, maior divulgação dos jogos, expansão da cobertura, etc. 


Além do trabalho localizado (clubes/federações), o verdadeiro legado desta Copa do Mundo depende, essencialmente, da atuação da Confederação Brasileira de Futebol daqui pra frente. Mais do que jogadoras, comissão técnica, público e outras engrenagens, é justamente a principal entidade do futebol nacional que precisa promover reflexões sobre este Mundial. Os desabafos de Marta e Mônica após a eliminação serão ouvidas pelos nossos cartolas? Ações concretas serão desenvolvidas para amenizar a desigualdade entre masculino e feminino? Infraestrutura defasada, investimento inexistente nas categorias de base, remuneração baixa continuarão sendo o panorama delas? 

Marta,Debinha,Tamires,Monica

Chegamos às oitavas de final na transpiração e no talento individual de uma geração valiosa, mas envelhecida. Como Marta falou após a partida contra as francesas, ela, Cristiane e Formiga não são eternas. Há potencial para novas camisas 10, 9 e 8 de excelência surgirem no Brasil, mas sem apoio, 95% delas desistirão do sonho do futebol profissional e ficarão pelo caminho. Quantos talentos mais serão desperdiçados por conta dessa política mesquinha da cartolagem brasileira quando o assunto é futebol feminino? A história escrita pelo time brasileiro neste Mundial, aliado ao 'barulho comprado' pela opinião pública e pela imprensa, fazem deste o momento ideal para uma revolução positiva na modalidade. Resta saber se a CBF está disposta a absorver lições e redirecionar os caminhos do futebol feminino, ou se ficará, mais uma vez, de olhos fechados e braços cruzados.

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