Início de ano, época em que os clubes brasileiros divulgam a numeração oficial de seus jogadores para a temporada. O que os elencos de ​Cruzeiro​Atlético-MG​Corinthians​Flamengo​Internacional e ​Palmeiras - isso para citar só alguns -, têm em comum em 2019? Nenhum destes plantéis tem a camisa 24 preenchida/ocupada. A explicação para a rejeição ao número é social e, obviamente, está ligada às ideias de masculinidade e homofobia, estreitamente arraigadas à prática esportiva, especialmente ao futebol.


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Philippe Coutinho,Yerry Mina

A ligação entre o número 24 e o universo LGBT, especificamente no Brasil, remete ao popular e contraventor jogo do bicho. No jogo, onde cada animal representa uma série numérica, o veado é o número 24. Por conta de diversas simbologias, este animal passou a ser atrelado pejorativamente aos homossexuais, e tal alcunha passou a ser usada de forma ostensiva e ofensiva no trato de homens gaysEsta conexão ajuda a explicar o porquê da rejeição de jogadores brasileiros ao número 24. 


No imaginário popular, a prática do futebol é atrelada às ideias de masculinidade, virilidade e força. Uma evidência disso é chuva de críticas e rechaço que o futebol feminino costuma receber, tanto por parte dos espectadores, quanto nos bastidores da bola. O futebol ainda é visto como um ambiente categoricamente masculino, na acepção 'universal' e estereotipada do que significa ser homem: bravura, coragem, macheza. Nesta perspectiva atrasada, mas infelizmente aceita e reproduzida pelo senso comum, não há espaço para quem rompe com a hegemonia heterossexista, ou seja, não há espaço para atletas gays.

Dani Ceballos

Pelo fato do esporte ser um microcosmo social, ele reflete com fidelidade o que existe estruturalmente em nossa sociedade. A preocupação de jogadores, profissionais ou amadores, em serem associados ao 24 evidencia como ainda estamos atrasados em mentalidade. A aversão a um simples número - que em nada define um ser humano, muito menos sua orientação sexual -, escracha como o preconceito ainda é forte no Brasil, e como as pessoas ainda tratam a homossexualidade como tabu ou algo negativo


Fica a reflexão: em um espaço onde pessoas se esquivam até da possibilidade de serem associadas à homossexualidade, o que aconteceria com atletas que de fato se assumissem gays? Como seria o tratamento nas arquibancadas, nos vestiários e nos treinamentos? Imagina-se que semelhante ao que acontece na sociedade como um todo: a violência contra LGBTs aumenta exponencialmente a cada novo ano, sendo o Brasil o líder atual nas estatísticas de crimes de homofobia. Precisamos mudar essa realidade de ódio e agressão em todas as estruturas sociais, inclusive no futebol e no esporte como um todo.