A casa do Vasco da Gama está prestes a completar 90 anos. Como parte das homenagens e comemorações do aniversário do estádio, o ​Lance! entrevistou o historiador Walmer Peres, do Centro de Me​mória do Vasco. E o que não falta para a casa cruz-maltina é história nestes quase 90 anos.


O historiador lembrou basicamente como a construção do estádio foi resultado direto da luta do cruz-maltino contra o racismo. Ligado às camadas mais populares da sociedade carioca, o Vasco aceitou jogadores negros e de condições sociais menos favorecidas desde o começo da equipe de futebol (em novembro de 1915). Obviamente, essa postura não foi bem aceita pelas outras agremiações:


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– São Januário está intrinsecamente envolvido na luta do Vasco contra o racismo e contra o preconceito social. Ele é um monumento que representa duas coisas: primeiro a luta do Vasco contra essas coisas no futebol e segundo a demonstração da força da instituição contra aqueles que queriam enfraquecê-lo. O estatuto da Amea era claro, ele não queria que clubes montassem equipes competitivas, para ganhar um campeonato, com jogadores das camadas mais populares – explicou Peres.



– A base do Vasco era com esses jogadores. Isso não é papo de vascaíno. Estou falando como historiador. Eles, infelizmente, tomaram posturas institucionais racistas e preconceituosas contra os jogadores das camadas populares. Isso não tem como apagar. Os jornais da época estão aí para provar, boa parte da memória oral da época foi materializada em livros, inclusive por Mário Filho no 'Negro no Futebol Brasileiro – completou.


Anos mais tarde, em 1924, Flamengo, Fluminense, Botafogo, América e Bangu fundaram uma nova liga no futebol carioca, a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA). O regulamento da nova entidade, embora não fosse de cunho explicitamente racista, foi montado para evitar que negros e pobres pudessem também jogar futebol. E é exatamente neste contexto, como um ato de resistência, que ganha força a ideia do Vasco ter uma casa própria. 



– Você não vai encontrar no estatuto da Amea assim: 'proíbo negros'. Então, ela proibia analfabetos, quem executava trabalhos braçais, que estava em ofício que recebe gorjeta... Uma série de características de pessoas que estavam inseridas nas camadas populares. Então, era essa a forma que eles faziam para barrá-los. E o campo, não era qualquer um que tinha o seu próprio para jogo, mas os fundadores da liga já tinham. Então, também era um subterfúgio para dizer 'proibimos jogadores de camadas populares'. Era uma série de eufemismos para não dizer 'proibimos negros e brancos de baixa condição social – concluiu Peres.